SURPRESA DO DESTINO
Sabrina ...a cegonha chegou! n67
Copyright: Diana Whitney
Ttulo original: "Mixing business with baby"
Publicado originalmente em 2000
Digitalizao/ Reviso: m_nolasco73

 


Ele, um solteiro convicto... Ela, uma me dedicada!

Contra capa: O atraente e bem-sucedido Rick Blaine queria saber tudo sobre sua adorvel funcionria, Catrina Jordan. Do que ela gostava? O que a fazia rir? Mas quando descobriu que Catrina tinha uma filha, seu entusiasmo esmoreceu. Crianas representavam uma grande responsabilidade... e a ltima coisa que ele queria era compromisso.

No entanto, no era fcil esquecer Catrina... Mas seria sensato misturar negcios, romance... e um beb?


CAPTULO I

- Consegui o emprego! - Entrando to apressada na pequena livraria que mal conseguia respirar, Catrina Mitchell Jordan caminhou diretamente at a proprietria, uma mulher de cabelos grisalhos que ajeitava nas estantes alguns livros em couro que haviam acabado de chegar do encadernador. - Consegui o emprego, eu consegui... consegui!
A chegada exuberante de Catrina foi complementada com uma espcie de dana, do tipo que as chefes de torcida fazem quando seu time est ganhando.
- Claro que conseguiu. - Gracie Applegate riu, ajeitando com a mo o penteado impecvel. - Nunca tive dvida de que isso aconteceria. 
- Bem, no posso dizer que no tive dvidas. Se no fosse por voc eu ainda estaria pensando em como pagar o aluguel no ms que vem. - Sem esconder o alvio, Catrina encostou-se no balco e respirou fundo para'conter as lgrimas. Passara muito tempo desempregada, e suas economias estavam chegando ao fim. - No sei como voc conseguiu esse milagre, mas sempre vou lhe dever um favor. Muito obrigada... mesmo.
Gracie segurou-a pela mo.
- Tolice, menina.  a Blaine Arquitetura que deve me agradecer por ter lhes mandado a melhor contadora que j conheci. Tenho certeza de que Martha, minha amiga do departamento pessoal, vai concordar com isso.
- Existe algum em Los Angeles que voc no conhea pessoalmente?
- Oh, isso  um exagero... Mas tenho que admitir que ser proprietria da melhor livraria da cidade me permite conhecer muitas pessoas interessantes e inteligentes. Por falar nisso... - A mulher mais velha continuava arrumando os livros e seu tom de voz era casual. - J teve a oportunidade de conhecer seu chefe pessoalmente?
- O sr. Blaine? - Catrina meneou a cabea, intimamente nervosa diante da perspectiva de encontrar algum que fora to elogiado pelos prprios funcionrios. - Aparentemente um grupo de gerentes negociou um contrato bastante lucrativo, por isso ele resolveu levar toda a equipe para almoar como recompensa...
- Quanta gentileza. Mas por que seus olhos esto to arregalados, querida?
- Ele os levou para almoar em So Francisco, Gracie! Simplesmente alugou um avio e voou com os empregados at l. - Catrina encolheu os ombros. - Pessoas ricas me deixam nervosa. Minha irm Laura cometeu o erro de se casar com um homem rico. Ele quase a destruiu.
Ela deixou de mencionar que logo depois outro homem rico aparecera na vida de Laura, como o cavaleiro da armadura prateada das lendas, e a salvara de uma vida de sofrimento. Mas Catrina considerava aquilo apenas uma questo de sorte, claro.
De qualquer forma, Gracie parecia desaprov-la com um ar de censura no olhar .
- Ora, ora, querida, no pode julgar toda uma classe de pessoas baseando-se em um caso isolado. Alm disso, se Rick Blaine fosse mesmo to rico como dizem, no teria que alugar um avio, concorda?
Catrina no pde conter um sorriso.
- No, acho que no.
Os lbios da outra mulher tambm se curvaram em um sorriso amplo. Gracie era, para Catrina, uma mistura em partes iguais de uma av simptica e amiga conscienciosa. Catrina a adorava.
Assim como Heather.
Um rudo vindo do escritrio chamou sua ateno, e ela caminhou at l rapidamente, retirando a criana do bero com carinho.
- Ol, amor. Dormiu bem?
Os cabelos da menina estavam revoltos e embaraados. Seu rosto infantil era rosado, de aspecto bem saudvel. Depois de bocejar; ela estendeu o brao para tocar o rosto da me.
- Vov Gracie me deu ma.
-  mesmo? - Catrina estreitou os olhos, fingindo um interesse exagerado diante da informao prosaica. - Foi muita gentileza da parte dela, no foi?
Quando Heather fez um gesto de assentimento com a cabea, Catrina olhou para a velha senhora, que se aproximara da porta.
- Desculpe as manias de uma velha - Gracie murmurou, parecendo inexplicavelmente embaraada. - Mas j que meu filho parece determinado a se tornar um solteiro incorrigvel, essa  a nica forma de ouvir uma criana me chamar de "vov". Espero que no se importe.
- Claro que no me importo. Toda criana merece ter uma av, mesmo que seja postia. Como sabe, minha me morreu h muitos anos, e os avs paternos de Heather vivem a mais de cinco mil quilmetros de distncia.
- Sim, isso  mau.
- Neste caso, tenho de discordar. Eles so boas pessoas, eu acho, mas nunca foram loucos por crianas. Tenho a impresso de que os dois sentem-se aliviados por terem conseguido criar um filho e no tm a menor inteno de repetir a experincia. - Catrina ajeitou a filha no colo, sentindo o aroma doce que exalava dos cabelos da menina. - Alm disso, dado o resultado pattico de seus esforos paternais, creio que no posso culp-los.
Gracie sorriu, embora seu olhar parecesse triste.
- O rapaz devia ter alguma boa qualidade, ou uma mulher inteligente como voc no teria se casado com ele...
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Catrina. O divrcio havia sido confuso, amargo, e intimamente ela ainda sentia que falhara de alguma maneira.
- Dan sempre foi um homem teimoso e infeliz. Achei que podia mudar isso, mas no consegui.
Fechando os olhos, ela apertou Heather contra o peito com fora. Sentia-se insegura, pois sabia que suas escolhas influenciariam o futuro da f1lha com toda a certeza.
Catrina tinha crescido sem um pai. Ele abandonara a famlia quando ela era apenas uma criana. De certa forma, a perda fora irrecupervel. Agora o mesmo destino aguardava sua filha adorada, j que Dan nem sequer se preocupara em requerer ao juiz permisso para ver Heather. Ele nunca desejara realmente uma criana.
A dura realidade era que ele tampouco havia desejado uma esposa. Na verdade, o que Dan queria era uma empregada capaz de realizar todas as tarefas domsticas, inclusive servi-lo na cama... 
Os passos suaves de Gracie encaminhando-se para seu lado fizeram-na voltar  realidade. 
- s vezes temos de passar por experincias ruins para que saibamos valorizar tudo de bom que o destino nos reserva.
Catrina soluou, usando a mo livre para enxugar uma lgrima que no conseguira conter.
- Eu sei. Mas quando penso em minha filha crescendo sem pai, sabendo que ele no se importa com ela, fico com o corao partido.
Gracie abriu a boca, fechou-a, e depois ficou em silncio um momento para escolher melhor as palavras. Quando finalmente falou, sua voz revelava o conhecido tom de calma e bom senso.
- Talvez demore um pouco para que certos homens compreendam o que  realmente importante na vida... Voc vai encontrar a pessoa certa um dia. Basta ter pacincia, querida.
- Eu no quero um homem. Todos eles apenas causam sofrimento e frustrao, e cedo ou tarde acabam indo embora. Qual e o sentido de se relacionar com seres to desprezveis?
- Ora, querida, relacionamo-nos com eles por causa do amor...
- O amor  um mito.
A mulher mais velha riu, apesar de manter sria a expresso.
-  jovem demais para estar to desencantada.
- No acredito em contos de fadas, se  que me entende.
- Claro que no. - Os olhos profundamente azuis de Gracie estreitaram-se. -  por isso que passou tardes inteiras em minha loja relendo as maiores histrias de amor da literatura...
Sentindo-se acuada, Catrina abaixou-se para pegar no cho a bolsa com os brinquedos da menina.
- Muito obrigada por cuidar de Heather. Obrigada por tudo. Sua amizade significa muito para mim.
Gracie limitou-se a responder com um sorriso e, em seguida, tocou levemente no ombro da amiga com carinho. Mas quando viu Catrina sair pela porta uma voz interior lhe disse nitidamente:
Voc no pode contar com ningum, Cattie, querida. Se fizer isso, certamente ser muito magoada por esse mundo cruel.
- Creio que voc est certa, querida - a velha senhora murmurou em voz baixa. - Absolutamente certa.

- Por favor, no dificulte minha vida. Farei qualquer coisa que voc quiser. - Impotente, Catrina ajoelhou-se diante daquela que a tinha nas mos, fazendo-lhe uma carcia com o dedo indicador. - Qualquer coisa que quiser, tudo o que precisar, vou realizar suas fantasias mais loucas. Apenas me faa esse favor, e pagarei seu preo. - Ela pressionou o rosto contra a superfcie fria e plstica. - Seis mseras cpias antes da reunio das trs horas. Seu manual de operao diz que voc pode fazer isso. Por favor, estou implorando. Vou polir seu vidro, limpar seu mecanismo e checar seu funcionamento todos os dias pelo resto de minha vida. - Com hesitao, ela apertou o boto outra vez.
Uma luz acendeu no painel da mquina, mas apesar disso nada aconteceu.
Catrina respirou fundo.
- Tudo bem... Eu tambm posso ench-la da graxa, provocar um curto circuito e procurar outro equipamento nas pginas amarelas. A escolha  sua, parceira. Se cooperar, viver. Caso contrrio, saiba que tenho um cortador de papis em minha mesa... e que pretendo us-lo em voc, traidora. 
Uma voz masculina pegou-a completamente de surpresa.
- No sei quanto  mquina, mas eu fiquei muito impressionado.
Ela levantou-se de maneira abrupta, encarando com um sorriso absolutamente pattico o recm-chegado, que vestia uma roupa esporte bem casual.
O homem deu um passo para trs, erguendo as mos  altura da cabea.
- No me machuque. - Um sorriso de brilho incomum e olhos azuis curiosos a encaravam com bom humor. - Veja, estou desarmado.
Sob circunstncias normais, Catrina teria se divertido com a situao bizarra. Mas naquele momento tudo parecia irreal.
Ela estava tensa, sentindo-se ao mesmo tempo pressionada pelas expectativas em relao ao novo emprego e embaraada por ter sido surpreendida ameaando a mquina copiadora como se fosse uma luntica.
- Se no quer ser envolvido como cmplice de um crime, sugiro que saia logo daqui.
O homem arqueou uma sobrancelha.
- No h outra alternativa? Voc no parece ser capaz de usar violncia contra uma pobre mquina desprotegida.
- Desprotegida? Pois sim! - O rosto dela estava vermelho. Queimando, na verdade. - Voc  que pensa. No comeo at que ela coopera, funcionando exatamente como diz o manual, mas ento resolve falhar justamente quando toda sua carreira depende disso.
- Toda sua carreira? Uau, isso  srio!
- Se eu no entregar as cpias desse relatrio na sala da presidncia dentro de quinze minutos realmente vou ter srios problemas.
- Hum... no podemos deixar que isso acontea, no ? - Retorcendo os lbios, ele olhou para a mquina, fingindo preocupao. - Talvez eu possa ser til. Tenho alguma experincia com equipamentos.
-  mesmo?
- Certa vez cheguei a consertar a mquina de caf do escritrio, pode acreditar.
- Que impressionante. - A atitude casual do estranho fez Catrina pensar que ele trabalhava para a administrao do prdio, ou talvez para o departamento de engenharia. - Voc trabalha aqui?
A pergunta o deixou claramente surpreso.
- Para ser franco, trabalho. Por qu?
Exasperada demais com o olhar fixo do homem, ela virou-se para olhar o relgio na parede.
- Porque duvido que meus superiores aprovariam se eu desse a um estranho acesso aos equipamentos da companhia. Se voc acabasse danificando ou destruindo essa maldita mquina, eu pessoalmente iria cumpriment-lo, mas provavelmente acabariam descontando o prejuzo em meu pagamento, ou demitindo-me. E no gosto de nenhuma das alternativas.
Ele ajeitou os cabelos em um gesto ao mesmo tempo seguro e arrogante.
- Ento tentarei ser excepcionalmente gentil.
Catrina sorriu apesar da tenso. Havia um carisma naquele estranho que a deixava indefesa, um tipo de charme que parecia capaz de tir-la do srio de forma insidiosa. Antes que pudesse se deter, ela ouviu-se dizendo:
- Fale no ouvido dela, e talvez essa lata velha acabe segUindo-o at sua casa.
As pupilas dele dilataram-se. A sensualidade daquele olhar pegou-a desprevenida.
- Basta fazer isso?
Embaraada e furiosa por estar se comportando cada vez mais como uma idiota, Catrina desviou o olhar para a copiadora. 
- Se conseguir fazer essa coisa funcionar, ficarei agradecida. Caso contrrio, vai ter que me desculpar. No tenho tempo a perder, se  que me entende... 
O homem percebeu o esforo dela para voltar  conversa impessoal, e respeitou aquilo. 
- Vejamos o que posso fazer.
Ele abriu a porta de acesso e examinou o interior da mquina. Aps alguns instantes, calmamente retirou uma bandeja plstica, desconectando-a do resto do equipamento.
Por um segundo, Catrina no entendeu o que estava acontecendo, e ento ficou mortificada.
- Por favor, no me diga que a bandeja de papel estava vazia...
-Tudo bem, eu no vou lhe dizer. - Ele recarregou a mquina em silncio antes de voltar a encar-la. - S sugiro que no volte a ameaar a pobrezinha daquele jeito... Ela pode ficar sentida. .
Diante do sorriso sarcstico do estranho, Catrina desejou que um buraco se abrisse no cho para engoli-la.
- Muito obrigada.
- De nada.
Ela no precisava nem sequer olhar para o homem para saber que ele continuava sorrindo. Para piorar tudo, um aroma delicioso de colnia desprendia-se do estranho, obscurecendo-lhe os sentidos.
Limpando a garganta, Catrina finalmente olhou de relance, percebendo que seu salvador agora olhava casualmente para as pginas do relatrio financeiro da companhia que a copiadora estava produzindo.
Imediatamente, ela retirou os papis das mos do homem.
- Voc por acaso  membro da diretoria?
A expresso dele era de estupor.
- No exatamente.
- Ento no posso permitir que veja isso.  um documento confidencial.
- Acho que ningum iria se importar se eu desse uma olhada preliminar nessas projees.
- Sinto muito, mas a poltica da companhia probe o acesso a documentos financeiros, a no ser pelo pessoal da contabilidade e os membros da diretoria.
-  mesmo?
- Sim.
- Hum... Parece que preciso olhar novamente o manual de procedimentos da empresa.
- Isso seria prudente. - Ela deixou escapar um suspiro aliviado, juntando todos os papis, cpias e originais, em um s mao. Afinal de contas, havia concludo o trabalho a tempo. A vida era boa. - Acho que agora devo levar isso at a sala de conferncias.
- Sim, eu suponho que deva.
Mesmo sem saber por que, Catrina hesitou.
- H... Bem, muito obrigada outra vez.
- De nada... outra vez. - Havia um magnetismo inacreditvel no sorriso daquele homem.
Mais um momento se passou, e s ento ela respirou, esforando-se para sorrir ao mesmo tempo em que girava de forma desajeitada para sair da sala, carregando os papis e quase colidindo com um homem de cabelos grisalhos que acabara de entrar. Ao reconhecer o recm-chegado, Catrina sentiu um arrepio na espinha. Aquele era o diretor financeiro da empresa, seu chefe.
O homem ignorou-a por Uni instante, e depois virou o rosto para encar-la.
- Conheceu Rick?
- Qual Rick?
Ele piscou algumas vezes, e ento comeou a rir como se houvesse ouvido uma piada.
- Essa  boa... - Dizendo aquilo, voltou a olhar para o jovem que continuava parado ao lado da mquina copiadora. - Tudo bem, Rick? Escute, os advogados da prefeitura esto em seu escritrio, e eu preciso de sua assinatura nos novos contratos.
Quando afinal percebeu que tinha feito papel de boba diante do dono da empresa, Catrina sentiu a espinha congelar.
- Nosso departamento legal j revisou isso? - Rick Blaine perguntou.
O diretor financeiro assentiu.
- Sim, s precisamos de sua assinatura, e ento o negcio estar fechado.
- Deixe-me ler tudo rapidamente antes. Mandarei Marge entregar os documentos em seu escritrio assim que tiver feito isso.
Catrina encostou-se em um arquivo metlico. Suas pernas estavam bambas, era melhor acalmar-se e respirar fundo ou acabaria desmaiando na frente dos dois e ficaria em uma situao ainda mais embaraosa.

Rick ergueu os olhos do contrato o suficiente para ver que toda a cor havia desaparecido do rosto daquela jovem mulher. Percebera que ela no o reconhecera poucos instantes antes, o que no o incomodara nem um pouco.
Estivera jogando uma enfadonha partida de golfe com os diretores de uma importante empresa local que pretendiam construir uma nova filial, e mais parecia um rapaz do almoxarifado que o fundador de uma firma de arquitetura multimilionria. Conhecer pessoalmente cada um de seus funcionrios sempre fora uma regra pessoal. Como aquela jovem podia ter lhe passado despercebida?
A expresso embaraada da jovem foi rapidamente substituda por outra, de raiva.
Caminhando ao lado de Rick, o diretor financeiro continuava a esclarecer detalhes do contrato. Depois de esperar que a jovem se afastasse, ele interrompeu o outro homem de forma incisiva.
- Quem  aquela mulher?
- Que mulher? - Frank Glasgow piscou, obviamente tentando reorganizar os pensamentos. - Oh...  nossa nova assistente contbil. Jordan, se no me engano... Catherine, Caitlin... algo assim.
- Descubra.
- Descobrir o qu?
quela altura, a srta. Jordan j desaparecera pela porta da sala de conferncias, carregando os relatrios. Rick continuou olhando por um instante para o corredor vazio.
- O nome dela. Quero saber o nome completo.
- Por qu?
- Porque  rude se referir a um funcionrio como "Ei, voc".
- Oh... - Frank arqueou as sobrancelhas, em seguida pigarreou. - Bem, mas voltando ao contrato, acho que as clusulas referentes aos prazos podem ser mais flexveis, precisamos pensar em um possvel atraso de fornecedores e...
- Sim, sim, voc est certo - Rick murmurou ao ver a linda srta. Jordan aparecer outra vez na porta da sala de conferncias.
Ela hesitou por um segundo, olhando com irritao para o lado da sala onde se sentavam os diretores e o presidente da empresa, depois sentou-se em uma das mesas laterais reservadas aos assistentes. Ficara deliberadamente de costas para Rick, em um sinal inequvoco de que no estava interessada nas atenes do chefe.
- Rick, voc tem um momento?
Uma voz feminina vagamente familiar chamou a ateno dele, que virou-se de imediato para encarar uma simptica mulher de meia-idade que se aproximava com passos rpidos.
- Boa tarde, Sandra. Fiquei sabendo que o time de futebol de seu filho foi campeo da liga amadora. Parabns.
- Muito obrigada. Isso vai garantir uma bolsa de estudos para ele na Universidade da Califrnia.
- Verdade? Isso  timo. Voc deve estar orgulhosa.
- E como estou...
- Fez alguma coisa diferente em seus cabelos, no fez?
- H... Ah, sim. - A mulher ajeitou o penteado com um sorriso agradecido. - Nem mesmo meu marido notou . Voc gostou?
Rick Blaine tambm sorriu. Era o tipo de sorriso que costumava deixar as mulheres enlouquecidas.
- Muito atraente. Reala o formato de seus olhos e valoriza seu sorriso, que  adorvel.
- Mas que exagero!
- Se acha que a verdade  exagero, tudo bem.
Sandra corou e deixou escapar uma risada, depois encolheu os ombros e respirou fundo, como que para recuperar um mnimo de dignidade.
- Quando finalmente se casar, voc vai partir centenas de coraes, sabia, seu danado?
- Por que faria isso? No posso me casar sabendo que a mulher mais perfeita do mundo j  comprometida. - Ao dizer aquilo, Rick tomou a mo da mulher e beijou-a, ao mesmo tempo em que piscava com ar conspiratrio. - Espero que seu marido saiba que  um homem de sorte.
- Vou contar a ele que voc disse isso.
- Conte mesmo.
Com o rosto ainda mais corado, Sandra respirou fundo e fez meno de afastar-se, mas acabou detendo-se abruptamente.
- Eu quase me esqueci. O pessoal do departamento de projetos me pediu para agradecer o prmio extra que voc pagou a todos na semana passada. Foi muita generosidade.
- Sou eu quem devo agradecer. Congratule seus colegas mais uma vez pelo trabalho bem-feito. Por causa dos esforos deles a companhia conseguiu renovar um contrato muito lucrativo, o que beneficiar a todos ns.
A expresso de Sandra era de puro prazer.
- Vou dar o recado
- Faa isso. - Rick continuou dando total ateno  mulher at que ela se afastasse. Em seguida, seu olhar voltou-se imediatamente para a fascinante srta. Jordan, pegando-a de surpresa. Ele sentiu um estranho prazer ao constatar que estivera sendo observado pela nova funcionria, que imediatamente voltou a lhe dar as costas. - Parece que comecei com o p esquerdo com nossa nova funcionria - ele murmurou a ningum em particular.
- O qu? - Sentado a seu lado, Frank seguiu o olhar do chefe e meneou a cabea. - Ah... ela provavelmente s est preocupada em manter o emprego. O departamento financeiro  um dos mais complexos e importantes da companhia.
A meno de Frank quanto a sua prpria importncia no passou despercebida a Rick.
- No conseguiramos ir em frente sem voc.
O pequenino homem pareceu ficar satisfeito com o elogio do chefe. Apesar do ego enorme, Frank era um excelente administrador, o que Rick descobrira depois de muitos anos de trabalho juntos.
- Podemos terminar a reviso daqueles contratos agora, se voc quiser. Estou livre at as quatro e meia...
Mas o lembrete do funcionrio no foi ouvido, j que naquele momento Rick j estava caminhando para a pequena mesa na qual a srta. Jordan estava instalada.
Um sbito movimento de ombros foi a nica reao dela diante da chegada do presidente da empresa.
- Ocorreu-me que fomos interrompidos antes que pudssemos nos apresentar devidamente - ele disse com jovialidade. - Sou Rick Blaine.
- J havia descoberto. - Ela olhava para a tela do computador como se estivesse hipnotizada. Seus dedos deslizavam sobre o teclado com velocidade. - Prazer em conhec-lo, sr. Blaine.
Apesar de cumpriment-lo com palavras, Catrina no lhe deu o benefcio de um olhar.
Rick parecia desconfortvel.
- E voc ...
Ela inclinou-se para a frente, corrigindo a digitao de uma palavra sem tirar os olhos da tela do computador.
- Catrina Jordan.
- Catrina. Que nome adorvel. - Ele repetiu o nome, que era pronunciado Cat-rina, com nfase na palavra "Cat". - Sua me devia ser uma f entusiasmada dos felinos.
- Minha me era alrgica a gatos. Tenho o mesmo nome de minha av. - Catrina consultou o bloco de anotaes por um instante e ento voltou a digitar o teclado sem fazer qualquer outro comentrio.
- Entendo. - Rick sentia-se como um colegial, tentando convidar a rainha da escola para sair. - Minha me era uma grande f de Humphrey Bogart. - Ele deu seu melhor sorriso, presumindo que aquilo provocaria alguma reao na nova funcionria.
O que teria acontecido; se Catrina ao menos houvesse erguido os olhos.
- Ele era um timo ator.
Rick respirou fundo, contendo um suspiro frustrado.
- Ela me deu esse nome por causa do personagem de Humphrey Bogart em Casablanca.
- Que interessante - ela murmurou gelidamente, deixando bem claro que no queria que aquela conversa se estendesse muito.
- Escute, quero me desculpar pelo que aconteceu h pouco. No pretendia deix-la embaraada. Quero dizer, se est embaraada, saiba que no existe motivo para isso. Essa  uma empresa pouco formal. Todos nos tratamos pelo primeiro nome por aqui. No quero que fique intimidada s porque meu nome est no topo da lista.
Os dedos de Catrina congelaram sobre o teclado. Ela ento respirou fundo e finalmente o encarou.
- No me senti intimidada, sr. Blaine, e tambm no estou interessada em um flerte casual com o chefe, ou qualquer outra pessoa dessa companhia. Levo meu trabalho muito a srio, e sou boa no que fao. Preciso desse emprego. Serei uma funcionria til para a empresa, mas apenas isso.
Se Rick houvesse sido atingido por uma punhalada, no teria ficado mais chocado.
- Que tipo de reputao, exatamente, eu tenho entre meus funcionrios?
A pergunta desarmou-a completamente.
- Todos o tm em alta conta - ela confessou. - Para ser franca, falam maravilhas a seu respeito.
- Quer dizer que ningum acha que sou dom-juan de escritrio?
O rosto de Catrina subitamente corou, o que na opinio de Rick a deixou ainda mais bonita.
- Pelo contrrio, voc  conhecido como um homem generoso e justo com todos.
- E voc obviamente discorda de todos, no ?
A pergunta irnica a fez morder o lbio inferior.
- Desculpe-me por minha rudeza. Na verdade, voc estava certo, eu estava embaraada porque no o conhecia e tambm porque fiz papel de tola na sua frente. Achei que estava zombando de mim. Talvez tenha me enganado.
- Talvez? - Um sorriso jovial curvou os lbios de Rick. - Tudo bem, vamos comear tudo de novo, certo? - Ele estendeu a mo. - Meu nome  Blaine, Rick Blaine, eu trabalho aqui.
Catrina hesitou por um instante, ento ofereceu a mo.
- Sou Catrina Jordan. Tambm trabalho aqui.
Contrastando com o comportamento frio, Rick notou que a pele dela era muito quente. Quente e convidativa.
- Espero que possamos ser amigos, Catrina.
Tais palavras aparentemente a espantaram, pois ela afastou a mo de imediato.
- Tenho certeza de que seremos, sr. Blaine.
- Rick.
- Tudo bem. Rick. - E, dizendo aquilo, ela voltou a olhar para a tela do computador.
Sentindo-se profundamente desprezado, Rick voltou a seu lugar na mesa de reunies, sentando-se ao lado de Frank Glasgow, que obviamente assistira a toda aquela cena pattica.
- Sei que no  de minha conta - Frank comeou. - Mas pensei que voc tivesse normas rgidas sobre... h... bem, sobre misturar negcios e prazer, por assim dizer.
- Fui to bvio assim?
- Temo que sim.
Contendo um suspiro, Rick massageou a prpria nunca e girou a cabea devagar. Sabia que Frank estava certo. Regras eram regras, e nenhum negcio eficiente funcionaria se os empregados comeassem a se envolver em relacionamentos romnticos.
Mas havia algo em Catrina Jordan que lhe chamava a ateno, por isso olhou em sua direo ainda mais uma vez.
Frank Glasgow meneou a cabea lentamente.
- Espero que saiba o que est fazendo.
- Eu tambm - Rick replicou em um sussurro. - Eu tambm...


CAPTULO II

Um especial da casa para viagem, por favor.
Comprimida contra o balco, Catrina esforou-se para pegar o dinheiro, mas o empurro de uma mulher fez com que sua carteira casse no cho. Frustrada, ela abaixou-se e constatou que a carteira estava debaixo do p de um sujeito grandalho que mais parecia um urso.
Tudo indicava que seria um daqueles dias...
- Pode me dar licena, senhor? - Engolindo em seco, Catrina tocou levemente na bota de couro do homenzarro. - Voc est pisando em minha carteira.
O homem piscou, confuso, antes de dar um passo para o lado.
Murmurando um agradecimento, ela estendeu o brao, notando horrorizada que o piso praticamente destrura a carteira, descosturando-a por inteiro em um dos lados.
Moedas rolaram pelo cho em meio a uma floresta de pernas e ps que se moviam freneticamente. Apenas uma pessoa louca se atreveria atentar recuper-las.
Quando finalmente conseguiu juntar as moedas que estavam mais prximas e coloc-las de volta na carteira com sua ltima nota de um dlar, Catrina levantou-se com dificuldade e viu que havia um buraco enorme em sua meia-cala, bem na altura do joelho.
Droga, eram apenas sete e trinta da manh!
Segurando a bolsa junto ao corpo, tentou afastar-se do burburinho assim que foi possvel. J perto da sada, quase colidiu com um peito largo e msculo, reconhecendo um aroma familiar de loo aps-barba antes mesmo de virar a cabea.
- Ora, que coincidncia nos encontrarmos aqui! - Rick Blaine estreitou os olhos como se estivesse surpreso. - Srta. Horton... Catherine, certo?
Ela cerrou os dentes em um sorriso contrariado.
- Jordan, Catrina Jordan.
- Claro, lembro-me agora. - Ele sorriu, abrindo a porta de vidro e segurando-a para que Catrina passasse. Em seguida, comeou a caminhar ao lado dela na calada.
- Vejo que ambos temos muito bom gosto para escolher caf, o daqui  o melhor da redondeza. - Rick lanou um olhar especulativo para o pacote que ela segurava. - Capuccino?
- Especial da casa, puro.
- Ah, isso explica tudo...
- Explica o qu?
- Seu comportamento sangneo e nervoso.
Catrina parou para encar-lo.
- O que disse?
- No quis insult-la, claro. Mas qualquer pessoa que comea o dia com uma dose cavalar de cafena acaba ficando um pouco irritadia s vezes...
- No estou irritada.
-  que ainda no bebeu seu caf.
- Bebendo caf, ou no, no sou o tipo de pessoa que est descrevendo. - Que petulncia a daquele homem! Era praticamente um estranho e mesmo assim se atrevia a julgar a personalidade dela. - Alm disso,  prematuro sair por a fazendo comentrios categricos sobre pessoas que mal conhece.
- Creio que est certa quanto a isso. E s existe uma forma para reparar minha ignorncia a seu respeito... Que tal um jantar hoje  noite?
Observando os olhos brilhantes de Rick, Catrina concluiu que estava prestes a cair em uma armadilha.
- No, muito obrigada.
- Amanh?
- No. Obrigada.
- Sua resposta ser sempre a mesma?
- Provavelmente.
- Ah, provavelmente significa que ainda tenho uma chance.
- No, no significa. - Ela lembrou a si mesma que aquele homem tinha o poder de despedi-la, e precisava muito do emprego para se sustentar e cuidar da filha. - Por favor, no considere isso um insulto pessoal. Acontece que no estou aberta para um relacionamento romntico... ou de qualquer outro tipo, nesse momento.
- Nem mesmo uma amizade?
- A experincia me ensinou que amizade  apenas a palavra-cdigo masculina para designar sexo sem comprometimento.
Rick sorveu um gole de caf e a olhou longamente. Parecia sinceramente aturdido.
- V em frente, diga logo tudo o que pensa a meu respeito.
Daquela vez, ela no pde conter um sorriso. O homem realmente possua um charme quase irresistvel. Em outras circunstncias ficaria lisonjeada por receber as atenes de algum to interessante, e talvez at retribusse.
- Desculpe-me se o insultei. Tenho a tendncia de ser franca demais s vezes.
- No, no, eu adoro franqueza. - Rick franziu as sobrancelhas, olhando-a de relance. - Isso  mentira. Odeio franqueza exagerada.
- Muitos homens odeiam.
- E muitas mulheres tambm. Por exemplo, voc gostaria se eu dissesse que parece uma colegial desastrada com esse furo enorme na meia? - Ele sorriu quando Catrina parou novamente e o encarou com olhar fixo. - Aposto que no.
O comentrio a surpreendeu. No foi possvel. Para ela conter uma risada.
- Touch, sr. Blaine.
- Rick.
- Touch, Rick.
Os dois agora j estavam diante do prdio onde ficavam os escritrios da Blaine Arquitetura. Ele abriu a porta de vidro polidamente.
- Bem, agora que j nos conhecemos melhor graas a um brutal acesso de sinceridade, vai concordar em sair comigo?
- No - Catrina murmurou com um suspiro. - Mas devo admitir que me sinto melhor a seu respeito do que a dez minutos atrs.
-  por causa de minhas sobrancelhas, no ?
- O qu?
- Minhas sobrancelhas. Sei que so feias. Muito grossas no meio e ralas nas extremidades. Alguns amigos dizem que isso me faz parecer um chihuahua, s por gozao... Aposto que voc detesta ces.
- Eu adoro ces.
- Ento por que no concorda em sair comigo?
Exasperada, Catrina entrou no elevador assim que as portas se abriram. Evitava a todo custo encarar o chefe.
- Porque voc  rico, arrogante e intrometido. Ser que isso responde sua pergunta?
Rick piscou.
- Sim, acho que responde.

O sol do meio-dia era quente, contrastando com o ar frio do outono, e o parque fervilhava de atividade. Do ponto privilegiado onde estava, escondido atrs de um enorme cedro, Rick observava a loira escultural fazendo exerccios no gramado a alguns metros de distncia. Ela girava os braos, flexionava os ombros e agachava-se ritmicamente. Tanto a roupa que usava, um agasalho de moletom, quanto os tnis, eram velhos, claramente gastos pelo uso repetido.
Aquilo no importava. Ela podia estar envolta em trapos que Rick continuaria considerando-a a mulher mais excitante do mundo.
E ele nem mesmo sabia por que se sentia assim.
Fascinado, continuou a observ-la. Cada movimento de Catrina era fluido e gracioso, a demonstrao mais perfeita de sade e feminilidade que Rick j vira.
O olhar dele continuava desfrutando cada nuana, cada giro dos quadris daquela linda mulher. Estava to hipnotizado que quase no percebeu a tempo que ela preparava-se para fazer sua corrida depois da srie de exerccios de aquecimento.
Era preciso revelar logo sua presena e abord-la o mais rpido possvel. E foi o que fez, saindo do abrigo onde estava e colocando-se em p bem no meio da trilha. Entretanto, passaram-se ainda alguns momentos antes que Catrina notasse sua presena. Quando aquilo aconteceu, Rick tentou manter a expresso mais casual do mundo.
- Belo dia para uma corrida, no ?
Ela limitou-se a encar-lo em silncio.
Rick sentiu a mandbula tremer. Nunca antes tivera que se esforar tanto para atrair a ateno de uma mulher. E jamais se sentira to determinado a conseguir aquilo.
Como ela parecia claramente arredia no momento, Rick decidiu levar a farsa um pouco mais longe, imitando os exerccios que a vira fazer instantes antes. Colocando as mos na cintura, ele comeou a girar para os dois lados com movimentos bruscos. Um olhar de relance o informou de que estava sendo observado. Entusiasmado, ele sorriu de forma devastadora e ento passou a fazer flexes, esticando as pernas atrs do corpo como vira Catrina fazer.
Alguma coisa estalou em suas costas.
Uma dor lancinante na espinha o fez perder o equilbrio. Era como se as pernas no fossem capazes de suportar-lhe o prprio peso. 
O horror da situao durou alguns segundos e depois Rick desabou no cho impotente. Quando bateu no solo, sentiu espasmos na regio lombar e cibras por toda a perna direita. Ele teve que cerrar os dentes para suportar a dor e rolou no cho como uma serpente. 
Quando finalmente sentiu os msculos relaxarem um pouco, ergueu a cabea e notou que a trilha de seixos do parque estava vazia. Catrina havia desaparecido.
Aps passar mais alguns minutos sentado, esperando que as dores cessassem completamente, Rick voltou ao escritrio. Apesar de mancar, sentia-se determinado. Mesmo que ela mesma no soubesse, Catrina Jordan tomava-se, minuto a minuto, o maior desafio que ele j enfrentara na vida.

Sentindo uma pontada de dor que percorreu suas costas e ombros, Rick prendeu a respirao e ouviu o barulho de gua corrente vindo do vestirio feminino. Tinha adivinhado que ela usaria a academia do ltimo andar para tomar banho e se trocar depois da sesso de exerccios da hora do almoo, e obviamente acertara em cheio.
Tambm presumia que Catrina assistira a toda a cena pattica no parque, o que o fazia sentir-se desconfortvel. Na verdade, o ego masculino ferido no o deixava aceitar a humilhao de ser considerado fisicamente inapto pela mulher em que estava interessado. Um ataque de machismo o impelia a tentar demonstrar o contrrio.
Sem dvida, Catrina iria apreciar aquele esforo. Afinal de contas, mulheres sempre ficavam impressionadas diante de uma demonstrao de masculinidade.
Lentamente, sentindo muita dor, ele deitou-se no aparelho de levantamento de halteres e plantou os ps no cho. Um tubo de ao acima de seu peito estava conectado a vrios pesos de ferro nas extremidades. Os ltimos dez anos no haviam sido os mais atlticos de sua vida, mas na faculdade Rick podia erguer cinqenta ou sessenta quilos sem ao menos suar, por isso ele nem se importou em checar o peso real do halteres. Alm disso, no estava ali para fazer exerccios de verdade, s iria se mover quando fosse absolutamente necessrio...
Quando o barulho do chuveiro cessou, substitudo pelo rudo de um secador de cabelos, Rick respirou fundo e enlaou com os dedos a barra de ao que estava acima, esperando em silncio.
Em uma questo de segundos, Catrina emergiu, vinda do vestirio feminino, j com as roupas de trabalho. Ele notou que a meia furada havia sido retirada, deixando as pernas dela nuas... e extremamente atraentes.
Catrina no notou a presena dele, parecia preocupada e tensa. Sua pele, normalmente plida, estava bastante rosada por causa do banho quente.
Rick concluiu que estava diante da mulher mais linda que j vira. Ele no resistiu e a cumprimentou novamente.
- Ol, outra vez.
Ela girou sobre os calcanhares, levando a mo direita ao pescoo em um gesto de vulnerabilidade que o excitou ainda mais.
- Nossos caminhos vivem se cruzando. - Rick apertou os dedos ao redor da barra de ao, fingindo o ar mais casual possvel. - Estranho, no ? 
Erguendo a.cabea, ela encarou-o diretamente. 
- Sim, multo estranho. 
- Teria me juntado a voc no parque, mas no queria que se sentisse desconfortvel caso no conseguisse acompanhar meu ritmo.
Os lbios de Catrina curvaram-se em um sorriso absolutamente irresistvel.
- Tenho certeza de que teria me feito comer poeira. Isso,  claro, se tivesse conseguido ficar em p para comear.
Rick achou melhor considerar aquele sorriso como um prmio de consolao.
- Apenas um pequeno acidente... Por acaso j teve problemas com pedras dentro do tnis?
- Pedras?
- Sim. Entram sem que voc perceba, e ento, quando voc tem que firmar o p no cho... pronto, l esto elas!
Os lbios de Catrina estreitaram-se muito, como se ela estivesse lutando para no rir.
- Claro.
- Mas, diga-me... alm de correr, o que mais voc faz para manter a forma?
- Oh... Bem, eu gosto de tnis. Pelo menos costumava gostar. No tenho tido muito tempo para isso ultimamente. 
Uma possibilidade. Rick tinha de aproveit-la.
- Mas no  mesmo incrvel? Tnis  meu esporte predileto. - Pegar uma bola, bater nela com uma raquete... Isso no devia ser muito difcil, certo? - Talvez possamos disputar uma partida um dia desses.
- Talvez.
A resistncia de Catrina estava diminuindo, ele podia ver aquilo no olhar dela. 
- Voc devia tentar os halteres tambm. E timo para o sistema cardiovascular. - Para provar o que dizia, Rick ergueu a barra bufando, e ao mesmo tempo sentiu outro estalo nas costas. Seus braos imediatamente perderam toda a fora, e o peso caiu-lhe sobre o peito, forando-o a soltar todo o ar dos pulmes de forma humilhante.
Catrina arregalou os olhos.
- Voc est bem?
Ele abriu a boca, mas mal conseguia respirar.
- E-eu fiz isso... - as palavras eram trmulas e entrecortadas - ...de propsito.
- Por qu? - Ela piscava confusa.
Passaram-se alguns segundos antes que Rick pudesse falar outra vez.
- Deve-se baixar o peso totalmente... e s ento ergu-lo. - Ele respirou fundo. -  c-como isso funciona.
- Entendo - Catrina murmurou. Ela no estava nem um pouco convencida. - Bem, agora vou deix-lo sozinho para que continue seus exerccios.
Rick sorriu, ignorando uma pontada de dor no peito.
- Se encontrar com Frank Glasgow, por favor, pode pedir para que ele venha at aqui me encontrar?
- Claro. - Ela olhou mais uma vez para os halteres, depois virou-se e desapareceu pela porta.
Depois do que pareceu uma eternidade, Frank apareceu no pequeno ginsio.
- O que posso fazer por voc?
- Voc pode tirar essa... maldita coisa de cima de mim. - Rick murmurou por entre os dentes cerrados. - E ento me levar at um hospital... Acho que quebrei uma costela.

- Vou lhe contar, Gracie,  sufocante. Toda vez que me viro, l est ele. O homem at mesmo chegou a me mandar presentes. 
- Presentes? - A senhora arqueou as sobrancelhas. - Coisas como diamantes, perfumes ou peles? 
- Bem, no. - Catrina desviou o olhar. - H... uma caixa de meias-calas. - De seda, muito caras, em um embrulho lindo, ela disse a si mesma, lembrando-se do ar inconsolvel do mensageiro que as entregara ao ser informado de que teria que levar o pacote de volta.
Gracie piscou rapidamente. 
- Oh, cus, mas isso parece um tanto... pessoal. 
- Na verdade,  um tipo de piada... E que outro dia eu estava em um caf pela manh e quando me abaixei para pegar as moedas... - Corando, Catrina parou de falar, sentindo-se embaraada diante do sorriso compreensivo da amiga. - Ora, esquea. De qualquer forma, acho que ele esta me seguindo.
- Seguindo-a? - Gracie riu. - Talvez o pobre homem esteja apenas interessado em voc. Afinal de contas, voc  uma jovem muito atraente, querida. 
- Bem, acontece que no estou interessada nele.
A mulher mais velha voltou a arquear as sobrancelhas.
- Nem um pouquinho?
Catrina encolheu os ombros, passando levemente a mo na cabea de Heather, que continuava adormecida em seu colo.
- Admito que  um homem atraente, mas esse no  o ponto. No estou interessada em homem algum, atraente ou no.
- Voc prefere mulheres?
- Gracie! - Catrina riu, meneando a cabea.  Sabe muito bem o que eu quis dizer. Acabei de me livrar de um relacionamento ruim... desastroso, para ser franca, e no quero me envolver novamente to cedo.
- Ento por que no tenta simplesmente um relacionamento bom?
O sorriso de Catrina desapareceu.
- Isso no existe - ela disse com firmeza.  Minha me sofreu por causa de dois casamentos terrveis. Dois homens a usaram, abusaram dela e ento a abandonaram. Meses atrs minha irm mais velha divorciou-se de um sujeito rico, narcisista e luntico... No, minha amiga, posso lhe garantir que Heather e eu estamos muito melhor sozinhas, obrigada.
- Nem todos os homens so canalhas degenerados, sabia?
- Claro que no. Apenas os que eu conheci. - Suspirando, ela levantou-se para colocar a filha no bero.  Precisava ir at a cozinha para preparar o jantar. - Compreendo que no  justo julgar todo o gnero masculino pelo comportamento de alguns indivduos, mas o fato concreto  que eu no suportaria outra decepo. Tenho de pensar em minha filha, uma criana que representa tudo para mim. No posso me arriscar a mago-la de nenhuma forma, especialmente dando-lhe falsas esperanas de que um dia poder ter um pai ou padrasto decente...
- Existem homens bons no mundo, Catrina, homens que fariam qualquer coisa para conquistar seu amor e ter seu respeito.
- Ento por que voc no conseguiu encontrar nenhum? - No instante em que pronunciou as palavras, Catrina sentiu-se tremendamente arrependida. - Sinto muito. Eu no quis dizer...
- Claro que voc quis. - Visivelmente plida, Gracie esforou-se para sorrir. - Sou a primeira a admitir que nunca fui capaz de escolher muito bem os homens de minha vida.
- Gracie...
- No, no, voc est certa.  bvio que no sou nenhuma autoridade quando se trata de relacionamentos amorosos. - A senhora desviou o olhar para a paisagem que se via atravs da janela. - E s porque voc me convidou para jantar algumas vezes, no tenho o direito de sair por a dizendo-lhe como levar sua vida... Tenho certeza de que voc no est nem um pouco interessada em minhas tolas opinies.
- Claro que estou interessada - Catrina assegurou. - Se eu no estivesse, jamais teria lhe contado sobre um assunto to delicado.
A ansiedade da mulher mais velha pareceu diminuir.
- Est falando srio?
- Mas  claro que sim.
- Eu no queria me intrometer...
- Gracie! Diga logo o que acha que eu tenho que fazer.
Um sorriso enigmtico curvou os lbios da amiga.
- Bem, j que voc pediu... Creio que deve continuar agindo exatamente do mesmo jeito.
- Evitando e ignorando Rick Blaine?
- Exatamente.
Catrina franziu as sobrancelhas. Por algum motivo, chegara a pensar que Gracie fosse aconselh-la de maneira muito diferente, insistindo para que desse uma chance a Rick Blaine.
- Ora, mas isso no parece ter diminudo o entusiasmo do homem nem um pouco.
- D tempo ao tempo. Apenas continue fingindo que no est interessada e...
- Fingir? Ora, Gracie, eu no tenho que fingir. Ser que no me ouviu? Eu no estou interessada em Rick Blaine. No, no e no!
-  claro, querida, eu entendo. - A velha senhora riu, ajeitando os cabelos com um gesto discreto. - De qualquer forma, continue agindo com seu chefe exatamente da mesma forma, e mais cedo ou mais tarde vai acabar conseguindo exatamente tudo o que quer.
- Exatamente o que quero - Catrina repetiu. As palavras pareciam amargas em sua boca. - Isso seria timo, claro, principalmente se eu soubesse o que quero de verdade. Mas, para ser franca, no fao a menor idia... Isso no me transforma em uma pessoa maluca?
- No, querida - Gracie assegurou, soltando uma risada. - Apenas faz de voc um ser humano normal.


CAPTULO III

Ao ouvir o toque do telefone celular, Rick freou o carro e parou no sinal vermelho antes de atend-lo. 
- Ainda bem que ligou. Estive tentando falar com voc nas ltimas duas horas - contou.  Infelizmente acabou perdendo um timo churrasco.
- No sabia que tnhamos um compromisso.
- No tnhamos, mas seria diferente se houvesse atendido o telefone duas horas atrs.
O riso familiar do outro lado da linha, como sempre, f-lo sorrir.
- Acho que uma velha como eu devia ficar envaidecida por ser convidada a passar a noite de sexta-feira com um bonito como voc.
- Voc no  velha, apenas tem mais experincia.
- Que bajulador barato! No me admira que as mulheres briguem como loucas por sua causa. - A risada feminina voltou a ser ouvida. - Mas na verdade acho que aquela jovem do escritrio da qual me falou deve estar resistindo duramente a seus convites, caso contrrio no estaria me procurando assim.
- Ser que um sujeito no pode passar a noite de sexta-feira com a me favorita sem ter que ouvir um sermo?
- Ela o est ignorando, no ?
- Nem tanto.
Uma buzina impaciente o fez colocar o veculo em movimento outra vez. Ele pisou no acelerador e logo se juntou aos demais automveis na pista externa da auto-estrada.
- Tenho certeza de que se a convidasse para jantar, ela no perderia a oportunidade por nada no mundo.
Mais uma vez risos soaram do outro lado da linha.
- Ah! Aposto que a moa bateu a porta em sua cara, estou certa?
- No exatamente. - Mas Rick, no ntimo, sabia que se houvesse ficado mais um minuto parado na soleira de Catrina Jordan aquilo provavelmente teria acontecido. - Apenas no surgiu a oportunidade certa para um convite, s isso.
- Sim... Bem, suponho que  difcil se aproximar de algum que no lhe d a menor chance, no ?
Rick olhou zangado para o celular, embora soubesse que essa era uma atitude totalmente irracional.
- Obrigado pelo apoio e encorajamento, me.
- Por que eu deveria encoraj-lo a partir o corao de outra mulher?
A frase o deixou aturdido.
- Nunca fiz nada assim. Todas as mulheres com quem sa acabaram se tornando minhas amigas.
- Seu charme  tanto uma maldio quanto uma bno, querido. As pessoas sentem-se atradas como se voc fosse um m, mas logo o plo negativo faz com se afastem at uma distncia segura. - O suspiro dela foi sincero, impregnado de uma tristeza que Rick desejaria no conhecer to bem. - Aparentemente ns sempre acabamos desejando o que no podemos ter.
- Me, por favor, no comece com essa histria.
- No comear com o qu? Ser que vou ter mesmo de ir para o tmulo sem poder segurar um neto no colo?
Ele manobrou o carro com cautela, diminuindo a velocidade at poder entrar no acesso para o prdio de apartamentos que ficava cerca de cinqenta metros adiante.
- J discutimos esse assunto antes.
- Sim, ns j discutimos. Mas me diga com sinceridade... por que a idia de casar e constituir famlia o faz suar frio?
- Voc sabe o porqu. - Ele apertou um boto na porta do carro e viu o vidro deslizar para baixo. Em seguida estendeu o brao para passar o carto magntico pela portaria de acesso. Detestava aquele assunto. Sempre detestara. - Vou embarcar para Tahoe na semana que vem para negociar a reforma de um cassino. O que acha de ir comigo? Afinal de contas, voc sempre adorou aqueles caa-nqueis...
- J est com trinta e seis anos, Rick. No acha que chegou a hora de levar uma vida estvel?
- Me...
- Eu quero ter netos!
- Ento compre alguns. - Arrependendo-se da exploso, Rick terminou de estacionar o carro na vaga da garagem e puxou o freio de mo. - Por favor, me. Confie em mim quando digo que estou fazendo um favor s mulheres do mundo continuando solteiro.
A voz do outro lado da linha suavizou-se.
- No deixe que meus fracassos o influenciem.
- Voc nunca fracassou, me. A culpa sempre foi deles...
Ela suspirou, um gemido desapontado que atingiu o corao de Rick como um punhal. Aquele era o desabafo de uma mulher dominada pela dor, assombrada por traies que se recusava a admitir. E por mais que adorasse a me, Rick reconhecia nela o mesmo cinismo ingnuo que vira nos olhos de Catrina Jordan. Como se as duas o fizessem lembrar de um passado que era melhor esquecer.
- Rick, voc ainda est a?
-  tarde - ele sussurrou. - Voc j devia estar dormindo.
- Fiz isso at agora.
- Me?
- Sim?
Ele fez uma pausa.
- Eu a amo.
- Eu tambm o amo, querido. Boa noite.
A ligao foi interrompida. Sua me desligara, e uma sensao fria o envolveu. Parado naquele carro e envolto por toneladas de concreto, Rick Blaine olhou para a garagem escura e silenciosa e sentiu-se sozinho.
Muito sozinho.
O pnico cresceu lentamente, insinuando-se por sua mente, ocupando-lhe todos os espaos esquecidos da alma. A solido era um destino sombrio, mas ele o aceitava. No existia nenhuma outra escolha.

Franzindo as sobrancelhas, Frank Glasgow saiu do elevador, massageando as costas com um grunhido. Depois de dois ou trs passos pelo corredor, ele virou a cabea e voltou a encarar Catrina, que caminhava ansiosa a seu lado.
- Com certeza voc foi informada de que certas sesses de treinamento so obrigatrias.
- Sim,  claro...
- Ento est combinado. - Ao dizer aquilo, ele fez meno de se virar para entrar no escritrio principal.
Catrina correu freneticamente, colocando-se diante do chefe.
- Mas um seminrio de dois dias do outro lado do Estado? Mesmo que eu pudesse pagar pelas despesas de viagem, certamente no conseguiria algum para cuidar de minha filha por tanto tempo.
- A empresa vai cobrir suas despesas. Martha providenciar as passagens areas e o itinerrio... - Glasgow fez uma parada, arqueando uma sobrancelha. - Sua filha? Voc tem uma criana?
- Ah... sim. Isso  um problema?
- No para mim. Para outros, talvez. - Ele riu como se houvesse acabado de contar uma piada. - Mas reconheo que  um inconveniente. De qualquer forma, esse seminrio  requisito bsico para o cargo. Certamente foi informada disso durante o processo de admisso, no foi?
Ela mordiscou o lbio inferior .
- Sim, mas eu no entendi que teria de passar vrios dias fora da cidade.
- No h algum que possa cuidar de sua menina enquanto estiver viajando?
- Temo que no.
O espanto do homem transformou-se em irritao.
-  uma tima contadora, srta. Jordan. Sentiremos muito por perd-la.
Foram precisos alguns segundos para que o impacto real daquela frase a atingisse.
- Realmente me demitir se eu no conseguir encontrar uma bab?
- Claro que no. - Glasgow falava devagar, de forma sucinta, pronunciando as palavras como se estivesse se dirigindo a uma criana. - Mas farei isso se no conseguir preencher os requisitos que sua posio exige. Como foi previamente explicado, esse treinamento  essencial para que desempenhe bem suas funes nesta empresa.
- Mas minha filha...
- ... responsabilidade sua - ele concluiu. - Temos muitas mes solteiras entre nossas funcionrias. Ajudamos sempre que  possvel, mas no a ponto de sacrificar a qualidade de nosso trabalho. Fui claro?
Catrina engoliu em seco.
- Sim, senhor. Muito claro.
Com um gesto de cabea, Glasgow finalmente se virou e marchou na direo da porta do escritrio principal.
Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos para encontrar uma sada para o problema que acabara de surgir. Vivia havia poucos meses em Los Angeles, e no conhecia algum que pudesse cuidar da filha. Exceto Gracie Applegate, claro. Mas pedir a uma ocupada mulher de negcios, com mais de sessenta anos de idade, para cuidar de uma criana era algo que Catrina dificilmente consideraria razovel, mesmo levando em conta os vnculos da amizade.
- No se preocupe com Frank.
Uma doce voz feminina afez voltar  realidade. Girando bruscamente, Catrina viu-se diante de uma morena atraente que j havia visto no escritrio dos projetistas.
- Ele realmente no quis agir como um idiota. Isso acontece acidentalmente... - a jovem baixou a voz at o nvel de um sussurro - ...sempre que ele abre a boca.
Catrina sorriu.
- Na verdade, o sr. Glasgow tem sido muito gentil comigo. Compreendo a posio dele.
- Que posio, a de missionrio da virtude? S consigo imaginar isso, vindo daquele velho rabugento.
Mais uma vez, a franqueza da linda morena fez com que ela sorrisse.
- Desculpe-me - a moa disse, rindo. - Sei que sou baixa e vulgar. Mas, j que Frank Glasgow  meu sogro, acho que acabei adquirindo alguns traos dele por osmose... Sandy Glasgow, muito prazer. Voc  a nova contadora, certo?
- Sim, Catrina Jordan.
- Prazer em conhec-la. - O aperto de mo de Sandy foi firme e inequivocamente amistoso.  No pude deixar de ouvir a conversa de vocs. E, c entre ns, devo dizer que achei a posio dele uma vergonha. Quantos anos tem sua filha?
- Dois.
- Uau, a idade terrvel! - Sandy encolheu os ombros. - Lembro-me de quando meu filho tinha essa idade.. o menino s voltou a ser um ser humano normal quando comeou a freqentar o jardim-de-infncia.
Mais uma vez, Catrina riu.
- Bem, posso dizer que Heather  uma menina muito bem-comportada. Mas mesmo assim, uma criana sempre d trabalho, sabe como ...
- Pode apostar que sei. - A morena mordiscou o lbio. - Aquele seminrio de treinamento  entediante, mas todos os funcionrios realmente so obrigados a faz-lo. Nossa empresa usa um sistema complexo de computadores que integra as reas de design grfico com a parte fiscal e contbil. Poucas companhias utilizam um equipamento to complexo, por isso os cursos de treinamento so raros e espalhados por todo o pas. Teve sorte de ser nesse Estado dessa vez. Eu tive de voar para Vermont, imagine s! - Sandy meneou a cabea, olhando com simpatia para Catrina. - No pode pedir ajuda a algum por alguns dias?
- Bem, h uma pessoa, mas eu francamente preferia no a incomodar.
A morena encolheu os ombros.
- Se quiser, posso lhe fornecer uma lista de profissionais para cuidar da menina. Mas adianto que vo cobrar muito caro...
- Seria muita gentileza de sua parte - Catrina replicou, mantendo um sorriso agradecido nos lbios.
- Certo, ento vou enviar a lista para seu computador hoje  tarde.
- Muito obrigada. Eu nem... - A voz dela falhou assim que a porta do escritrio no final do corredor se abriu, e Rick Blaine saiu de l ao lado de uma jovem sorridente que parecia feliz o bastante para flutuar.
- O que voc ia dizendo? - Sandy indagou.
- Hein? - Catrina ficou sem ao por um instante. Seu olhar, porm, continuava fixo no casal que estava parado alguns metros adiante. - Oh. Eu, ah... eu...
- Nunca vou conseguir agradecer o bastante! - a jovem loira disse, passando os braos ao redor do pescoo de Rick. - Foi o presente mais lindo do mundo. No sei como farei para retribuir.
Me engana que eu gosto, Catrina pensou com amargura. Era estranho, mas, no momento, sentia-se furiosa consigo mesma. Por que se sentia to incomodada com a presena de outra mulher ao lado dele?
Rick no fez esforo algum para se livrar do abrao.
- O prazer foi todo meu.
Aposto que sim.
Atrs de Catrina, Sandy sussurrou:
- Papai Noel ataca outra vez...
Com certo esforo, Catrina conseguiu manter a voz controlada.
- Ser que entendi errado, ou o sr. Blaine tem o costume de oferecer presentes para jovens bonitas?
Por um instante os olhos da morena estreitaram-se surpresos, ento sua expresso tornou-se compreensiva.
- Havia me esquecido de que voc  nova aqui. Para sua informao, nosso estimado chefe tem o costume de oferecer presentes para todos por aqui. Ele  o homem mais generoso que j conheci, embora os psiclogos amadores do escritrio digam que ele s est tentando compensar uma infncia pobre ou lutando contra algum tipo de insegurana... - Um grunhido de desdm demonstrou claramente o que Sandy pensava dessa teoria. - Como se um homem com aqueles ombros pudesse ser inseguro a respeito de qualquer coisa.
Por no saber o que dizer, Catrina permaneceu absolutamente calada, observando a jovem loira e Rick com um olhar de relance.
- Aquela  Ivana Trenton - Sandy murmurou assim que a loira afastou-se em direo ao elevador. - O filho dela teve a bicicleta roubada no parquinho da escola, na semana passada. Ivana ficou muito infeliz, pois o brinquedo tinha sido dado ao filho como presente de aniversrio, e no conseguiriam comprar outro para o garoto, uma vez que o marido dela est desempregado.
- Ento o sr. Blaine simplesmente comprou outra bicicleta para o menino?
-  o que dizem.
Todas as presunes que Catrina fizera sobre um possvel caso entre a loira e Rick caram sobre sua conscincia como um raio, fazendo-a corar. Sentia-se culpada por ter pensado coisas to terrveis sobre um homem que...
- Ele  realmente muito bonito, no ? - A voz de Sandy interrompeu a sesso de auto-recriminao.
- Hein? - Passou um instante antes que Catrina se recobrasse. - Sim,  um homem muito bonito.
Um sorriso compreensivo surgiu nos lbios da morena.
- Ele  o Prncipe Encantado de qualquer mulher, aquilo do que os sonhos so feitos. E tambm inacessvel, por isso nem pense nisso.
A frase pegou Catrina de surpresa.
- Pensar em qu?
- Ora, no me faa rir - Sandy replicou em um tom malicioso. - No sou cega nem estpida. Os olhares que voc lanou para Rick seriam capazes de derreter um iceberg. - Ela colocou a mo no ombro de Catrina em um gesto amistoso. - Rick trata cada mulher que conhece como se ela fosse feita de cristal e ouro, o sol se pe  direita e a lua  esquerda delas. Faz com que todas se sintam especiais, e  o homem mais gentil e charmoso que j encontrei. Mas tambm  uma garantia de coraes partidos, querida. Definitivamente no  do tipo que se casa. Nunca foi, e nunca ser.
O queixo de Catrina quase caiu no cho.
- No posso imaginar por que voc me disse isso, j que a idia de casamento me atrai tanto quanto a de ser atacada por um leo africano.
Os olhos de Sandy estreitaram-se, e seus lbios curvaram-se em um sorriso franco.
- Nesse caso, querida, seu crebro deveria dizer isso ao resto de seu corpo. Porque, posso garantir, voc estava olhando para Rick Blaine do mesmo jeito que um faminto olha para um prato de comida pela janela do restaurante.
Antes que Catrina pudesse protestar indignada, a morena olhou por sobre seu ombro e sussurrou:
- Mas agora erga o queixo, querida. O prato principal est chegando...
Sentindo um arrepio na espinha, ela no teve que se virar para saber que o piv da discusso acabara de parar s suas costas.
- Ol, Rick - Sandy saudou-o com total casualidade. - Fiquei sabendo que o contrato de Melbourne foi assinado. Parabns!
- Deve congratular o Frank - ele replicou calmamente. - Foi ele quem fez todo o trabalho de campo.
- Contarei ao Frank que voc disse isso. - Sandy lanou a Catrina um sorriso que continha uma clara advertncia. - Lembre-se do que falamos, querida. Mandarei a lista mais tarde.
Ajeitando os ombros, ela colocou no rosto a expresso mais neutra que pde encontrar, virando-se para encarar o chefe.
- Boa tarde, sr. Blaine...
- Rick. - O sorriso dele foi realmente devastador. - No nos tratamos com muita formalidade por aqui, lembra-se?
- Claro. - Catrina teve que se esforar para sorrir com certa naturalidade. - Rick.
Ele ficou oscilando o corpo, apoiando-o em um p e depois no outro, e ento enfiou as mos nos bolsos. Catrina poderia at dizer que estava nervoso.
- E ento, como vo as coisas para voc?
- Tudo bem, obrigada.
- Est gostando do trabalho?
- Muito.  um desafio na maior parte do tempo, mas faz com que me sinta recompensada.
- Bom, muito bom. - O olhar dele desviou-se para um quadro pendurado na parede do corredor, fixando-se nele como se o visse pela primeira vez. Por um momento Catrina pensou que ia ouvir um comentrio sobre a pintura, mas Rick Blaine, como sempre, surpreendeu-a.
- Eu lhe devo um pedido de desculpas.
- Desculpas?
- Sim. - A mandbula dele se contraiu. No tentou fazer contato visual, o que tambm era pouco comum em se tratando de Rick. - S depois que recebi o presente que lhe mandei de volta que me ocorreu a idia de que pode t-lo achado... inapropriado.
A sobrancelha de Catrina ergueu-se em estado de alerta.
- Oh... aquilo.
- Eu realmente no queria ofend-la. Pensei que ia achar engraado... - Ele cumprimentou, com um gesto de cabea, dois homens de cabelos grisalhos que passavam, ento levou a mo cerrada at a boca e tossiu discretamente. - Quero dizer, dadas as circunstncias de nosso encontro naquele caf e... ah, voc sabe.
- Sim, eu sei. - Sentindo-se mais relaxada, ela no pde conter um sorriso. - Voc presenciou um de meus pesadelos matinais.
- Todos ns passamos por momentos difceis. 
- Acho que sim. - Catrina duvidava de que aquele homem houvesse experimentado um momento embaraoso na vida, a no ser talvez por aquele tombo no parque. De qualquer forma, Rick continuava a encar-la com um ar estranhamente nervoso. - Tambm no quis ofend-lo quando devolvi o presente, mas , que, de fato, surpreendeu-me. Ainda no tinha percebido como voc  generoso com todos os funcionrios.
O olhar de Rick capturou o dela, prendendo-o como que por magnetismo. Catrina no conseguiria desviar a cabea, mesmo que quisesse.
- Gosto de agradar as pessoas, se  a isso que est se referindo.
- Claro - ela murmurou, perguntando-se se tinha irritado inadvertidamente Rick. 
- Pensou que eu a estava tentando seduzir?
A objetividade da pergunta a atingiu como uma bomba. Catrina sentiu o rosto corar. Fora exatamente aquilo o que pensara, mas o que realmente a embaraava no momento era a possibilidade de ter entendido tudo errado.
- Eu simplesmente no sabia que voc costumava agir assim normalmente.
- Isso significa que na prxima vez que eu lhe mandar um presente voc vai aceitar?
Ela engoliu em seco, tentando evitar encar-lo. Precisava se livrar depressa do encanto daqueles olhos azuis.
- Para ser franca, preferia que no houvesse uma prxima vez.
- Voc ia se sentir desconfortvel?
- Sim.
- timo. - Rick sorriu tranqilamente. - Gosto da idia de faz-la sentir-se desconfortvel.
- Por qu?
A voz dele baixou ao nvel de um murmrio.
- Voc provoca a mesma reao mim, Catrina Jordan, e eu tambm pretendo descobrir por qu.


CAPTULO IV

- Sim, eu sei que o centro fecha s seis, mas deve haver algum modo de providenciar um atendimento noturno especial, no ?
A voz feminina do outro lado da linha foi fria e impessoal.
- Eu j disse que nosso centro s pode cuidar de crianas no perodo diurno. No oferecemos nenhum servio noturno. Sinto muito.
Mas no sentiam tanto quanto Catrina. Ela desligou lentamente e, antes que tivesse tempo de reorganizar os pensamentos, ouviu a campainha da porta da frente soar.
Instantes depois, Gracie estava sendo recepcionada por uma barulhenta Heather, que no parava de gritar.
- Vov Gacie, vov Gacie!
A mulher riu, depois estendeu os braos para pegar a menina.
- Como est minha princesa hoje?
- Quero biscoito, vov.
- Um biscoito, no ? - Gracie olhou para Catrina com uma expresso interrogativa, e s falou depois de notar o gesto afirmativo da me da criana. - Bem, acho que posso cuidar disso. Est no armrio da cozinha, no ?
Um minuto depois, a mulher voltou para a sala de estar, carregando Heather em um brao e um prato de biscoitos na outra. A menina j estava com o rosto todo sujo de chocolate.
- Problemas, querida? - ela logo perguntou, notando imediatamente a contrariedade da amiga.
- O qu? Oh... nada importante. - Catrina deu um sorriso polido e pouco convincente. Uma vez por semana Gracie a visitava para uma sesso de vdeo, e tambm para saber das novidades. - Bem, vou fazer a pipoca. Que filme voc escolheu para hoje?
- No mude de assunto. Sinto-me insultada.
- Insultada?
- Sim, insultada. No pude deixar de notar que voc est na frente de uma lista de creches... para onde pretende mandar minha neta postia?
Catrina sorriu. Tinha esquecido como Gracie era observadora. Na verdade, nenhum detalhe jamais escapava daqueles lmpidos olhos azuis.
- Bem... Estou sendo obrigada a sair da cidade por dois ou trs dias, para participar de um seminrio de treinamento.
- Oh... parece interessante. Por que no falou sobre isso antes?
- S fiquei sabendo ontem. Alm disso, eu no queria... - Ela evitou o olhar da amiga. - No queria que voc se sentisse obrigada a oferecer ajuda, e  isso que est prestes a fazer, no ?
- Mas  claro! Ou por acaso acha que eu permitiria que voc deixasse essa menina preciosa nas mos de uma pessoa estranha?
- Gracie, voc  to especial! No sei o que faria sem sua amizade. - Catrina suspirou. - Mas no posso continuar me impondo desse jeito. Voc tem de cuidar de seus negcios. Cuidar de uma criana duas ou trs horas por dia  uma coisa, mas agora a situao  totalmente diferente. Heather vai deix-la maluca.
- Bobagem. No posso pensar em nada que me d tanto prazer. Alm disso, j faz tempo que eu queria arrumar um modo de passar um pouco mais de tempo com a princesa. Est combinado!
- Gracie...
A mulher encarou-a com ar interrogativo.
- A menos, claro, que no confie em mim para cuidar de sua filha.
Outro suspiro escapou dos lbios de Catrina.
- No existe outra pessoa no mundo em quem eu confie mais - ela disse com sinceridade. -  que parece que eu sempre estou me aproveitando de voc e de nossa amizade. Voc tem sido to boa comigo, e tenho pouco para oferecer em troca.
Por um momento os olhos azuis de Gracie brilharam intensamente, depois ela murmurou em uma voz embargada pela emoo.
- Oh, filha! Voc no faz idia de quanto tem me dado em troca, da felicidade que tem me proporcionado. - Ela respirou fundo, desviando o rosto enquanto dava outro biscoito para a menina, certamente para esconder as lgrimas. - Desde a primeira vez que voc e a menina entraram em minha loja, minha vida tem sido abenoada.
Catrina tambm sentiu um aperto na garganta, ficando momentaneamente calada.
Gracie finalmente voltou a encar-la, e agora parecia preocupada.
- O que foi, querida? Parece que est com vontade de chorar.
- Eu... estou. - Ela soluou, enxugando os olhos com as costas da mo. -  que j fazia muito tempo que ningum ficava realmente feliz com nossa presena, em vez de apenas nos tolerar.
- Voc merece o melhor da vida, Catrina, vocs duas merecem. Merecem ser amadas. Espero que um dia comece a acreditar nisso realmente. - Seguiu-se uma pequena pausa, durante a qual Gracie aproveitou para se controlar. - Bem, mas por falar nisso... como vo as coisas com aquele jovem de quem me falou?
- No h homem algum, Gracie, jovem ou velho. - Catrina corou, desviando a cabea e fingindo ajeitar a correspondncia que estava em cima da mesa. - Mas se est referindo-se ao enigmtico sr. Blaine e seus presentes estranhos... bem, parece que eu estava um pouco enganada quanto s intenes dele.
- Oh...  mesmo? - O tom de voz era suave, mas demonstrava uma curiosidade inequvoca.
Catrina encolheu os ombros, embaraa da ao se lembrar de que tivera a presuno de achar que um homem como Rick Blaine pudesse estar interessado nela.
- Eu... h... no entendi direito os motivos dele.
- E agora j sabe o que o homem pretendia realmente?
- Bem... - Ansiosa por mudar de assunto, ela olhou para a sacola onde estava a fita de vdeo trazida por Gracie. - O que teremos hoje? Outro filme de Mel Gibson? Mel lutando contra bandidos, correndo de bicicleta, enfrentando mutantes no futuro, apaixonado...
- O que a faz pensar que no entendeu os motivos dele na primeira vez, Catrina? Para mim, tudo parece muito claro. No conheo nenhum sujeito que d tanta ateno, e at presentes, para uma mulher se no estiver com segundas intenes...
- Esse homem  diferente. Descobri que o sr. Blaine faz esse tipo de coisa com todos que conhece... Parece ser o tipo de pessoa que se sente bem fazendo os outros felizes. E apesar de uma caixa de meias ser um presente meio estranho, eu no acho que...
Naquele momento a campainha da porta tocou outra vez, interrompendo-a. Um tanto irritada, Catrina levantou-se e foi atender, e ficou aturdida quando se viu diante de um rapaz de entregas, cujo rosto nem podia ver direito porque estava escondido atrs do maior buqu de rosas vermelhas que j vira.
Uma voz anasalada veio de atrs das flores.
- Srta. Catrina Jordan?
- Ah... eu... sim. - As rosas estavam nos braos dela antes que a ltima palavra fosse pronunciada.
- Tenha uma boa noite - o rapaz murmurou, indo embora antes que Catrina pudesse dizer qualquer coisa.
Gracie aproximou-se em um instante, e imediatamente pegou o pequeno envelope preso na base do vaso de cristal no qual as rosas haviam sido entregues e, em seguida, inalou levemente o perfume das flores.
- Oh, rosas... Mas que encantador! Ser que posso arriscar um palpite sobre quem as mandou?
A expresso de Catrina era sria.
- Por que adivinhar? Basta ler o carto, uma vez que j pegou o envelope.
- Se voc insiste. - Sorrindo, Gracie tirou os culos do bolso do tailleur e s ento abriu o pequeno envelope. - "Desculpe-me mais uma vez. Que tal um jantar na sexta  noite? Rick" - A amiga conteve o riso. - Bem, voc estava certa. Esse realmente no  um homem que tem interesses romnticos. Tenho certeza de que ele manda dzias de rosas vermelhas para todas as funcionrias do escritrio semanalmente.
Catrina pegou o carto da mo da amiga.
- Muito engraado... - Apesar da bravata, ela sentiu o corao disparar assim que reconheceu a assinatura de Rick Blaine. Era estranho, mas ficava emocionada ao pensar que ele havia tocado naquele mesmo carto, pensando nela. - Isso no significa nada - sussurrou, corando ao perceber que falava em voz alta.
Gracie apressou-se em colocar o vaso sobre a mesa, em seguida voltou a cheirar as flores.
- Hum, que fragrncia deliciosa. Diga-me outra vez, por que acha que esse homem no est interessado em voc? 
Demorou um momento para que Catrina controlasse a emoo para pensar claramente.
- Ele  apenas uma pessoa generosa e impulsiva, Gracie. Tenho certeza de que se perguntar para a assistente pessoal de Rick vou descobrir que ele mandou flores para meia-dzia de pessoas, comemorando as situaes mais diversas, desde o aniversrio do contador at o bar mitzvah do filho de um executivo.  uma coisa que ele faz sem pensar, s isso.
- Ele parece ser um jovem maravilhoso.
- Ele . - As palavras saram sem que ela pensasse.
O sorriso de Gracie ampliou-se.
- Quero dizer, ao menos parece ser. Para ser franca, mal o conheo.
- Uma situao que o homem parece estar ansioso por retificar.
Um arrepio percorreu a espinha de Catrina.
- Ele podia ser a encarnao de um Prncipe Encantado, Gracie, e no importaria. No quero outro homem em minha vida, nem a dor que eles inevitavelmente causam quando vo embora.
O sorriso da mulher mais velha desapareceu.
- Nem sempre eles vo embora, filha. Sei que tive dois casamentos ruins e no sou a pessoa mais indicada para conselhos, mas voc no pode julgar o mundo inteiro por causa de algumas experincias ruins.
- Experincias ruins?  assim que chama traio e abandono?
- Tudo nessa vida resume-se a experincias, querida, mesmo quando no podemos control-las. Sei que seu pai a deixou. E tambm sei que seu ex-marido no era um homem digno de seu amor. Mas isso no significa que todos os homens sejam canalhas.
- Sei disso. Mas francamente, estou cansada demais para baixar a guarda. Tenho medo de encontrar outra ma podre. No posso arriscar, Gracie, principalmente por causa de Heather. Detestaria v-la apegar-se a algum que a abandonasse depois.
- Mas a menina j experimentou isso, no ?
- Heather tinha apenas algumas semanas quando o pai foi embora. Era pequena demais para entender o que acontecia, felizmente.
- Mas voc lembra?
- Eu tinha trs anos quando meu pai partiu. - Catrina virou a cabea e olhou para a filha. A dor sentida no passado ainda corroia seu corao. - No quero que minha filha seja magoada.
- Como voc foi?
- Sim. - Um sussurro atormentado escapou dos lbios dela. - Como eu fui.
Gracie sorriu compreensiva, ajeitando a criana em uma das mos e acariciando o ombro de Catrina com a outra.
- Os pais no podem proteger seus filhos da vida, querida. Apenas podem ajud-los a lidar com ela.
Havia mais verdade naquilo do que ela queria admitir.
- Os pais devem ajudar os filhos a evitar situaes perigosas.
- Casamento  uma situao perigosa?
- Sim. Felizmente, tambm  uma situao evitvel.
A outra mulher considerou a frase.
- Sim,  verdade... Mas no se pode evitar o amor. Ele nos pega de surpresa quando menos esperamos, insinua-se em nosso corao como um ladro e nos muda para sempre, queiramos ou no.
Catrina sentiu um arrepio na espinha diante da sabedoria das palavras da amiga. O amor realmente era aquilo... um sentimento que agia como um predador, sempre pronto para atacar sua vtima justamente quando era impossvel fugir.
- O amor assombra nossa vida - ela murmurou. - Houve uma poca em que fantasiei sobre o amor, acreditando que uma emoo to profunda podia nos completar de alguma forma, tornar as pessoas mais humanas. Isso, porm, era s ingenuidade de uma adolescente tola. Eu estava enganada.
- Estava?
- Sim. - No havia qualquer incerteza naquelas palavras. A voz era firme e seca. Cheia de certeza. - Amor  para os perdedores, Gracie, um bando de pessoas amedrontadas que no tem coragem o bastante para enfrentar a vida de frente e sozinhas. - Seguiu-se uma pausa tensa. - Isso soou frio demais, desculpe-me - Catrina suspirou. - No foi exatamente o que eu quis dizer.
Mas na verdade, no ntimo, ela sabia que dissera exatamente o que pensava, e aquilo deixou-a apavorada.

Ela sentiu a presena de Rick antes mesmo de v-lo, coisa que vinha acontecendo com excessiva freqncia nos ltimos dias.
- E ento... - Ele apressou o passo para alcan-la e passou a andar lado a lado no passeio do parque. - Voc gostou das flores?
- Que mulher no gostaria de um buqu de rosas prpuras entregues em sua porta em um vaso de cristal? - Olhando de relance, Catrina percebeu que Rick parecia ao mesmo tempo feliz e aliviado. - Mesmo assim, no precisava ter feito aquilo.
- Eu queria.
- Por qu?
- Porque eu pensei... bem, eu esperei... que voc gostasse. E ento talvez me perdoasse por minha primeira tolice.
- O incidente com as meias de seda j foi esquecido.
- Esquecido? - Rick arqueou as sobrancelhas com ceticismo.
- Talvez no esquecido, mas devidamente perdoado. E no precisa ficar me mandando presentes por causa de uma piada sem graa... 
- Um de meus grandes prazeres  mandar presentes para as pessoas s quais admiro.
- J notei isso. - Catrina parou, encarando-o fixamente. Aquele homem a intrigava. No conseguia entender por que se importava tanto com Rick Blaine, j que a ltima coisa que queria no momento era se envolver com algum.
- Por que sente necessidade de comprar a afeio das pessoas? - ela perguntou subitamente.
A pergunta pegou-o de surpresa.
- No sinto.
- Verdade?
Ele franziu as sobrancelhas. No estava zangado, mas sem dvida sentia-se confuso.
- As coisas materiais podem no ser essenciais na vida, mas trazem esperana, conforto e prazer para aqueles que no podem t-las. Sei muito bem o que  desejar uma jaqueta sem furos nos cotovelos, um par de sapatos que nunca foi usado por outra pessoa ou ver um mero brinquedo debaixo de uma rvore de Natal.
- Pelo que entendo, sua famlia no era muito rica.
- Pelo contrrio. - No havia raiva nem autopiedade no olhar dele. - Minha me trabalhava muito para que pudssemos ter um teto. Ela nunca teve nada bonito para si, nunca teve uma jia que no deixasse seu dedo verde ou um vestido elegante que a fizesse sentir-se uma princesa, mesmo que apenas por algumas horas. Sentia-me magoado ao ver que outros tinham tanto, enquanto a mulher que era o centro de meu universo dispunha de to pouco.
A forma carinhosa que ele usava para falar da me tocou o corao de Catrina.
- Entendo o que quer dizer. Minha me passou pelas mesmas dificuldades quando ainda era viva.
O rosto de Rick agora parecia preocupado.
- Sinto muito por sua perda.
- J faz muito tempo.
- Mesmo assim, foi uma perda importante.
- Sim. - Ela sentiu a garganta seca. - Muito importante...
- Voc sabe, em certas ocasies a vida  muito dura - ele murmurou. - Nenhum de ns pode prever quando aqueles que amamos vo partir. Tudo o que sabemos  que nada  para sempre, por isso compartilhamos a alegria de viver junto s pessoas queridas enquanto temos sorte, e depois disso lutamos para cicatrizar as feridas e aceitar os arrependimentos que a perda delas traz  tona.
- Voc tem arrependimentos, Rick?
- Todos ns temos. Se formos honestos, devemos enfrent-los. - Ele arrancou uma folha de um arbusto e rolou-a entre os dedos. - A sorte acabou sorrindo para mim. Possuo mais do que necessrio para o resto de minha vida. E fico alegre por poder compartilhar isso com os outros, embora voc considere isso uma tentativa de comprar afeio. Por qu?
O rosto dela corou imediatamente.
- Talvez eu tenha falado demais. No pretendia insult-lo.
- Esquea isso. S queria entender por que voc d um sentido to sinistro a simples gestos de gentileza.
A conversa se tornara profunda e muito mais pessoal do que Catrina imaginara ser possvel. Um sinal de alerta soou em sua mente. Havia algo relacionado quele homem que a perturbava, tomando-a vulnervel, trazendo  tona tudo o que havia de mais ntimo em sua alma.
- A gentileza  apenas outra forma de fazer poltica - ela murmurou mecanicamente. - As pessoas usam esse recurso o tempo todo para conseguir o que querem.
Rick estudou-a por um momento.
- Realmente acredita nisso?
- Foi o que a experincia me ensinou. - Catrina agora se sentia muito desconfortvel. - Sei que parece cinismo, e talvez seja, mas se pensar direito no assunto vai concordar que a maioria das pessoas espera algo em troca quando agrada algum. Por exemplo, voc mesmo disse que agradar os outros faz com que se sinta bem. Um debatedor astuto diria que voc tem esse tipo de atitude porque dessa forma sente-se melhor consigo mesmo. E isso no deixa de ser um bom motivo...
O olhar dele fixou-se por um segundo no horizonte, como se as palavras de Catrina houvessem tocado em um ponto nevrlgico.
- Creio que sua anlise sobre mim  correta. Na verdade, todo seu argumento no  apenas lcido e lgico, mas tambm  brilhante.  uma pena que esteja errada.
Ela riu.
- Por que estou errada?
- Est errada - ele explicou devagar - porque j convivi com algum capaz de fazer qualquer sacrifcio sem nunca esperar nada em troca, simplesmente em nome do amor.
- Sua me?
- Sim.
Sem saber por qu, Catrina sentiu-se compelida a tocar na mo de Rick.
- O amor que uma me sente pelo filho  a forma mais pura de bondade que os seres humanos podem conhecer - disse lentamente. - Nesse aspecto, acho que voc venceu a discusso.
Os lbios dele curvaram-se em um sorriso.
- Oh, isso  timo. E qual ser minha recompensa?
- Ora, pense bem em suas palavras ou vai acabar provando meu ponto de vista sobre a natureza egosta dos seres humanos.
- Nunca duvidei desse aspecto. Somos naturalmente criaturas narcisistas, mas mesmo assim ainda acredito que tal defeito pode ser corrigido quando se possui um bom corao.
- Voc  um romntico incurvel.
- Muito obrigado. - Rick sorriu. - Por falar nisso, eu lhe trouxe um presente.
Catrina suspirou.
- No fui clara o bastante a respeito disso?
- Perfeitamente. - Sem parar de sorrir, ele abriu o zper do bolso do agasalho. - Mas suspeito que vai gostar desse...
A curiosidade superou o bom senso. Ao ver o pequeno saco de papel que ele retirou do bolso, Catrina no pde se conter e logo o abriu.
- Balas de coco? Eu adoro isso! Como voc sabia?
- No sabia. Mas eu tambm as adoro, e como obviamente somos almas gmeas...
- Almas gmeas? - Ela inclinou a cabea. - De onde tirou essa idia absurda?
- Sempre adorei a expresso "almas gmeas".  to... romntico.
Catrina no pde conter um sorriso. Ela apanhou um dos doces e colocou-o na boca.
- Esse  um presente que espero no receber de volta - Rick disse, sorrindo.
Ela riu.
- Pode ficar tranqilo. Nossa, fazia muito tempo que eu no comia isso. Ningum em minha famlia gostava dessas balas. Minhas irms ficavam enjoadas, e at mesmo Heather torce o nariz quando as v.
- Elas no sabem o que esto perdendo.
- Foi o que eu disse, mas elas nunca se deixaram convencer. - Ela juntou a palma das mos e colocou o saco de papel ao lado. - S sobrou uma.
- Quer tirar par ou mpar?
- No, ela deve ser sua.
- Ah! Um gesto de gentileza. - Ele comeu a ltima bala, pegando o saco de papel e jogando-o no primeiro cesto de lixo que encontrou. - Eu sabia que voc no era to fria como as pessoas acham que .
O comentrio jocoso a atingiu em cheio.
- No quero que as pessoas acreditem que eu sou fria.
- No quer? Ento por que finge ser dura e insensvel, quando ns dois sabemos que, por baixo dessa carapaa de cinismo, h uma mulher vibrante, de sangue quente, que no quer nada mais do que amar e ser amada?
A pergunta a surpreendeu, no apenas pela impertinncia mas tambm pela verdade secreta que continha.
- No quero discutir meus pensamentos ou sentimentos mais ntimos.
- Nesse caso, no vamos conversar. Mas eu planejo beij-la, beij-la como nunca foi beijada antes. A menos, claro, que me d um bom motivo para no fazer isso.
Catrina sentiu que no conseguiria encontrar um motivo mesmo que sua vida dependesse daquilo. E no queria realmente impedi-lo. Queria que Rick a beijasse, por mais irracional que pudesse parecer.
E a intensidade daquele desejo a amedrontou profundamente.


CAPTULO V

A s palavras saram .to facilmente que Rick no percebeu seu verdadeiro sentido at ver a expresso espantada de Catrina, cujo olhar era de pura antecipao. Sem dvida alguma, aquela mulher estava esperando para ser beijada. Mais do que isso, ela precisava ser beijada.
E por alguma razo, Rick preferiu no se aproveitar daquele momento inescrupulosamente. Em vez disso, limitou-se a enla-la em um abrao.
- Voc  linda -sussurrou.
- Eu sou? - Ela mal conseguia respirar.
- Sim. - Ele acariciou-a no rosto com uma das mos, ao mesmo tempo em que a puxava para mais perto com a outra.
Catrina estava muito prxima, aponto de Rick poder notar o reflexo da luz danando em seus olhos azuis. Um tremor comeou em seu peito. Era seu corao, acelerado como ele jamais sentira. Cores explodiam em sua mente, emoes que nunca havia experimentado antes e, naquele momento, foi impossvel resistir mais.
Foi um beijo diferente de tudo o que poderia imaginar e que o tocou no fundo da alma.
Um gemido lnguido escapou dos lbios dela, e Rick sentiu um turbilho de emoes enevoando-lhe a mente. E ento, quando o mundo j parecia estar girando ao redor dos dois, Catrina soluou, empurrando-o para longe com toda fora.
- Pare. - Ela respirou fundo, desviando a cabea em um gesto brusco. - No... por favor.
Demorou um instante para que ele recuperasse a voz.
- Sinto muito. Eu pensei que voc queria que eu... Quero dizer, eu pensei que estava tudo bem, que voc no...
A frase incompleta ficou suspensa no ar. Catrina limitou-se a menear a cabea.
- No foi culpa sua. Acho que acabei entregando-me  emoo do momento.
- E isso foi uma coisa ruim?
- Sim, muito ruim. - Ela recuperou a compostura muito mais rapidamente do que Rick. - Desculpe-me se dei a entender que estava interessada em um relacionamento romntico com voc. No estou. No estou interessada em qualquer relacionamento, mesmo que seja casual e divertido. Simplesmente no h lugar em minha vida para novas complicaes, e certamente no com o playboy do ano.
Rick fechou a boca. Em seguida engoliu em seco, meneou a cabea e encarou-a com descrena.
- Playboy do ano? Eu?
Ela corou.
- Eu no queria insult-lo. A verdade  que nunca conheci algum que fosse amado por tantas pessoas. Parece atrair a todos como um co atrai as pulgas.
- Um talento que eu mesmo no tinha percebido, mas esse conhecimento deve ter uma utilidade, j que gosto de animais.
Mais uma vez, Catrina corou.
- Desculpe-me, eu no tinha inteno...
- Onde foi que aprendeu que se pode ofender as pessoas e depois dizer simplesmente que no tinha a inteno de fazer isso?
Depois de encolher os ombros e suspirar, ela voltou a encar-lo, e Rick no viu nenhum sinal de maldade naquele olhar.
- Sou brutalmente franca s vezes.  um defeito, eu sei. De qualquer maneira, se considerou um insulto, no  problema meu. No quero fazer parte de sua lista de amiguinhas, Rick. Conheo-me muito bem. No sou capaz de passar de um caso para outro em busca apenas de diverso. E a essa altura de minha vida, simplesmente no quero, nem preciso, ter a complicao de um compromisso com outra pessoa.
- Compromisso? - O rosto dele estava branco. - Eu apenas a beijei, s isso. No foi grande coisa. - Rick sabia que estava mentindo, mas a simples meno da palavra "compromisso" bastou para provocar um arrepio em sua espinha.
Sem desviar o olhar, Catrina murmurou:
- Sei que um beijo no significa muito para voc, e que o mesmo se aplica a mim. O que no compreendo  por que est me perseguindo.
Era uma pergunta para a qual ele estava completamente despreparado.
- Eu no sei. No tenho o costume de insistir com mulheres que no me do nenhuma ateno.
-  mesmo?
- Sim. - O rosto msculo parecia bastante tenso. - Acontece que gosto de pessoas, especialmente mulheres. Gosto de ter amizade com elas. Isso  algum crime?
- Ento aquele era s um beijo de amigos?
- Claro - ele mentiu.
Catrina o pressionava, avaliando suas emoes, forando-o a examinar motivaes que ele mesmo no compreendia.
- Sinto muito se meu interesse a incomoda tanto.
- Desculpe-me, eu no quis ferir seus sentimentos.
- No feriu. - Outra mentira. Para um homem que se orgulhava de ser sincero, Rick estava agindo como um mestre da canalhice. - Parece que acabei me expressando mal. Espero que possamos ser amigos, s isso. - Suas feies em nada indicavam aquela falseta.
- Sei disso, Rick. Oh... admito que no princpio fui presunosa o bastante para acreditar que seu interesse em mim era mais pessoal, mas depois, observando a forma como trata seus amigos, percebi que voc  uma pessoa nica, algum com a habilidade de fazer qualquer um sentir-se especial.
- Isso  um defeito?
- Claro que no,  uma qualidade maravilhosa. - Catrina mordiscou o lbio inferior e desviou o olhar. - Espero que sejamos amigos, Rick, mas em um nvel menos pessoal.
Ele piscou atnito. Quantas vezes tinha dito as mesmas palavras para outras mulheres? Tinha perdido a conta. E em todas as ocasies, aquele discurso ensaiado havia sido recebido com sorrisos trmulos e olhos lacrimejantes. Rick sempre achara melhor ser sincero com as mulheres com quem saa, e acreditava que o fato de elas todas terem se tornado amigas queridas era uma indicao de que estava agindo corretamente. Ser que aquilo era um crime?
- Rick?
- Sim? Oh... Claro, entendi perfeitamente. - Na verdade, porm, tudo o que ele queria era que o cho se abrisse para engoli-lo.
- timo... - Catrina sorriu, baixando os olhos para o relgio de pulso em seguida. - Cus, veja s o horrio. Estou atrasada. - Ela voltou a encar-lo com uma expresso radiante. - Obrigada pelas balas... e por ser um amigo to atencioso.
Rick ofereceu um sorriso tmido em retribuio.
- Conte comigo sempre que precisar.
Ele ficou sentado na grama, de baixo da sombra de um enorme carvalho, vendo-a afastar-se. Catrina Jordan tinha penetrado nos recantos mais secretos de sua mente, iluminando-os como Rick jamais imaginara ser possvel. De vrias maneiras, ela acertara em cheio ao analis-lo.
Mas tambm se enganara muito. De uma forma ou de outra, Rick estava determinado a provar-lhe aquilo, mas que no tinha a menor idia de como faz-lo.

A brisa fresca que comeou a soprar no foi o bastante para esfriar a pele ardente ou o calor que a consumia por dentro. Catrina correu como louca at ficar completamente suada.
Ao sair do parque, desviou-se dos pedestres na calada com habilidade e subiu at o vestirio do prdio de escritrios pela escada, como se estivesse sendo perseguida pelo diabo em pessoa. S alguns minutos depois, j debaixo do jato gelado da ducha, conseguiu se refazer e voltar a pensar com alguma clareza.
O que estava acontecendo com ela? O que acontecera com a muralha que construra em torno de si mesma para se proteger daquele tipo de emoo?
Rick Blaine parecia ter destrudo aquela barreira sem fazer esforo algum. Por que tinha deixado aquilo acontecer?
Reorganizou os pensamentos, e concluiu que as experincias ruins do passado haviam lhe ensinado ao menos uma coisa. Tinha a tendncia de ver o que queria ver, mesmo quando no era verdade. E s porque o corao lhe dizia que Rick Blaine era um homem honesto e de princpios, isso no queria dizer que fosse verdade. Seu corao j a enganara no passado.
No podia arriscar-se a cometer outro engano. Precisava zelar pelo bem-estar emocional da filha. Sim. Aquele, certamente, era um jogo no qual Catrina jamais apostaria suas fichas.

- Bom dia - a recepcionista disse com um sorriso brilhante.
Rick cumprimentou-a com um gesto de cabea ao passar pela mesa, notando vagamente que o olhar da garota o seguia espantado. S alguns instantes depois percebeu que no tinha sorrido nem retribudo ao cumprimento como de costume.
Faria aquilo mais tarde, depois que descobrisse por que Catrina no havia ido  cafeteria naquela manh. Encontr-la ali se tornou parte de sua rotina diria. Que estranho... Era como se aquela mulher houvesse surgido do nada com o firme propsito de colocar sua vida de pernas para o ar!
Ele fez uma parada antes de entrar no escritrio onde ficavam os contadores e respirou fundo. Entretanto, quando abriu a porta e no viu Catrina na mesa de costume, caminhou direto at a sala de Frank Glasgow.
- Onde ela est?
O homem ergueu os olhos do relatrio financeiro que estava lendo.
- Onde est quem?
- Catrina. - Rick sabia que sua voz tremia, na verdade parecia extremamente preocupado. Ele apontou o dedo indicador para a mesa vazia. - Por acaso ela ligou dizendo que estava doente?
- Ah... - Frank acompanhou o gesto, claramente perplexo. - No, ela no ligou.
- No foi demitida, foi?
- Claro que no.  uma excelente profissional, e, eu odiaria perd-la.
E Rick tambm.
- Ento por que ningum procurou saber dela... h... quero dizer, por que no tentaram descobrir se est tudo bem?
Arqueando as sobrancelhas, Frank tirou os culos e colocou-os no bolso do palet.
- Ela est no seminrio de treinamento para o uso do software integrado.
- O qu? - Tudo comeou a fazer sentido, e Rick de imediato sentiu-se embaraado por ter feito papel de tolo na frente do outro homem.
Um sorriso compreensivo curvou os lbios do diretor financeiro.
- Sim, o curso de treinamento que voc insiste que cada funcionrio faa para aprender a lidar com esse sistema de computadores complexo que escolheu para a empresa.
- Ah, bem... - Rick nunca tinha tempo para cuidar daquele tipo de detalhe, que geralmente deixava a cargo dos gerentes do departamento pessoal. - Entendo.
- Est precisando de qu? Talvez outra pessoa possa ajud-lo...
- Hum... Oh, no  nada importante.
- Tem certeza?
- Claro que tenho. - O olhar de Rick estreitou-se. - E tire logo esse sorriso esperto do rosto.
- Estou tentando.
- Esforce-se mais. - Frustrado, ele passou os dedos entre os cabelos e olhou ao redor para ver se algum alm de Frank Glasgow presenciara seu pequeno ataque de histeria. - Por falar nisso, onde o curso de treinamento est sendo realizado dessa vez?
- Em Tahoe. - Inexplicavelmente, Frank conseguiu manter uma expresso sria dessa vez. - Menos de duas horas de viagem se conseguir alugar um avio.
- Obrigado pela dica. - Rick olhou de relance para o outro homem, tentando manter o mximo de compostura possvel.
Frank fez um gesto de agradecimento com a cabea, mas o sorriso voltou, insistente, em seus lbios.
- De nada.
- J terminou a reviso dos oramentos?
- No.
- Bem... apresse-se com isso.
- Certo, chefe. - Glasgow replicou de imediato, baixando os olhos para os papis que tinha diante de si para no rir.
Rick enfiou as mos nos bolsos, caminhando de volta para o elevador e perguntando-se se era a nica pessoa no mundo que ainda no tinha percebido quanto aquela mulher o fazia perder a cabea.

Carregando o palet no brao, Rick subiu a escadaria familiar e deu uma olhada na porta, depois disso entrou sem bater. J dentro da sala, jogou o casaco sobre a poltrona e desabou no sof com um suspiro.
-  voc, querido?
Ele esfregou os olhos com ambas as mos.
- Sim, me. Sou eu.
- D-me apenas um minuto.
- No precisa se apressar. As reservas no restaurante so para daqui a uma hora.
Rick ouviu passos apressados vindos do corredor que dava na cozinha, mas nem se preocupou em abrir os olhos.
- Mas que reservas?
Lentamente, ele massageou a prpria nuca.
- Decidi que precisvamos jantar fora - murmurou. - Arrume-se, mame, vamos agitar a cidade... - Quando abriu os olhos, Rick piscou confuso. - O que  isso? 
- Um beb. Voc sabe, um pequeno ser humano em estgio de crescimento. - Ela ajeitou a criana nos braos. - Como v, eu j havia feito outros planos para essa noite. Voc devia ter telefonado antes.
- O que est fazendo com um beb? Por favor, no me diga que levou a srio meu conselho de alugar um neto...
- Estou fazendo um favor para uma amiga. - Gracie franziu as sobrancelhas, cheirando o ar. - Oh, cus! A carne assada est queimando. Pode cuidar da menina por alguns minutos?
Dizendo aquilo, Gracie colocou a criana no colo de Rick e desapareceu pelo corredor antes que ele pudesse fazer qualquer protesto. Aturdido, ele olhou para a menina de rosto rosado. A pequena ria, revirava-se, enfiava o dedo na boca e babava sem parar. 
Rick estava horrorizado.
- Me!
- Um minuto - Gracie respondeu desde a cozinha.
Heather riu outra vez, segurando sua gravata de seda com os dedos midos.
- Papai?
- Santo Deus, no! 
Espantada com a veemncia do adulto, Heather arregalou os olhos. Seu pequeno corpo agora tremia. 
Instantaneamente, Rick suavizou o tom de voz.
- Sinto muito, no queria gritar com voc. No, eu no sou seu pai. Meu nome  Rick. Qual  seu nome?
A garota gemeu baixinho, olhando-o com hesitao. Era uma criana adorvel, com enormes olhos cor de mbar, cabelos loiros cacheados e uma boca pequenina que parecia vagamente familiar.
- Hetter.
- Hetter? - Ele franziu as sobrancelhas, pensando por alguns instantes. - Voc quer dizer Heather?
Ela assentiu.
- Mas que nome bonito - Rick murmurou, recebendo em troca um sorriso vacilante.
- Vov Gacie me deu biscoito.
- Vov Gracie? Vov? - Ele ergueu a cabea, atnito, no mesmo momento em que a me irrompeu na sala, vinda da cozinha. - Quando eu lhe disse para alugar um neto, me, no estava falando srio.
Gracie escolheu os ombros.
- Piada ou no, eu lhe disse que ia arrumar um neto, ou neta, com ou sem sua ajuda... Bem, a comida j est pronta. Vai ficar para jantar conosco ou no?
O olhar de Rick fixou-se por um segundo nas marcas de dedos em sua cara gravata de seda.
- Vou ficar.
- timo. - A me dele pegou a menina e o examinou detidamente. - Agora v se lavar, e no se esquea de jogar um pouco de gua fria no rosto. Sua aparncia  terrvel.
Ele se levantou, beijando-a no rosto com ternura.
- Sempre sabe o que dizer para que eu me sinta melhor.
-  para isso que as mes servem. - Gracie sorriu. - E depois do jantar, poder me contar tudo sobre a ltima crise em sua vida sentimental.
- O que a faz pensar que estou passando por uma crise?
- Palpite. - Ela o encarou com um olhar indecifrvel. - Ou talvez seja essa sua expresso desesperada...
- Ser que um homem no pode manter segredo algum nessa casa?
- Sou sua me, no sua confessora. Se quiser manter segredos, v falar com um padre.
- Adoraria fazer isso, mas ns somos metodistas, esqueceu?
- Boa observao. - Gracie caminhou para a cozinha, onde acomodou a menina em uma cadeira alta.
Rick tinha de admitir que a me parecia confortvel cuidando daquela criana. Confortvel e feliz.
- Agora sente-se. - Ela comandou ao v-lo voltar do lavabo. - Sente-se, coma e ento vamos conversar sobre um modo de fazer essa jovem acreditar que voc nunca vai abandon-la.
- Abandon-la? De onde tirou essa idia?
- Intuio materna - Gracie replicou, evitando o olhar do filho ao acomodar-se na cadeira. - Toda mulher gosta de acreditar que vai ser nica aos olhos do homem a quem se entrega.
Suspirando, Rick chegou  concluso de que seria intil questionar a me sobre aquele ataque de clarividncia. J desistira de tentar entend-la havia muito, muito tempo.
- Como poderei convenc-la de qualquer coisa? Ela j decidiu que sou um dom-juan moderno, um chefe que se insinua para qualquer funcionria...
- E voc ?
- Claro que no.
- E por que supe que ela acredite nisso? - Ao fazer a pergunta, Gracie serviu-se de uma suculenta fatia de carne. Continuava a evitar o olhar do filho.
- Eu no sei.
- No sabe? Bem, nesse caso nunca vai saber o que deve fazer para que ela mude de idia...
Rick resmungou algo incompreensvel, olhando para o prato que tinha diante de si.
- Tudo o que sei  que ela teve de sair da cidade por alguns dias, e subitamente comecei a me sentir incomodado, como se no soubesse o que fazer sozinho.
- Sente falta dela.
- No existe motivo para isso. Quero dizer, s nos conhecemos h algumas semanas. E nem sequer tivemos um encontro, a no ser por dois encontros... h... casuais, no parque onde ela pratica corrida.  que... - Ele suspirou de novo, cortando a carne do prprio prato vagarosamente. - No sei como explicar. Mas a verdade  que estou me sentindo sozinho.
- Sente falta dela - Gracie repetiu, estendendo o brao para limpar a pequena boca da menina que estava sentada a seu lado.
- Sim, isso  verdade.
- Ento por que est dizendo isso a mim, em vez de dizer para ela?
- Porque voc est aqui, e ela no.
- Sabe para onde essa jovem viajou?
- Sim. - Rick baixou o garfo. - Acha que eu devia ir atrs dela?
- O que eu penso no importa, querido. O que voc acha?
- Eu acho... - ele murmurou, empurrando o prato para frente - ...que est fazendo uma noite linda, muito propcia para um vo curto.
E, depois de dizer aquilo, Rick levantou-se, beijou a me no rosto rapidamente, fez uma carcia nos cabelos da menina e saiu apressado em direo ao aeroporto.


CAPTULO VI

- Tem certeza de que no esqueci de levar o coelho de pelcia? Ela no consegue dormir sem aquele coelho e...
- Sim, querida. - Uma risada divertida foi ouvida do outro lado da linha. - Nesse momento, Heather, est dormindo agarrada a seu adorado coelho. 
- Oh... - Catrina no sabia se suspirava de alvio ou de desapontamento com o fato de a filha no se importar nem um pouco com sua ausncia. Ela ajeitou o fone no ombro ao mesmo tempo em que acariciava a colcha da cama de hotel. - Isso ... timo. Estava preocupada com a possibilidade de ela ter problemas para dormir, j que no estou por perto. Nunca deixei de coloc-la na cama...
- A garganta dela ressecou-se, o que a irritou ainda mais. Ela comeou a tossir e riu desajeitada.
- Isso  ridculo, no ? Eu pensei que minha me era super protetora e paranica, mas estou comeando a v-Ia como uma pessoa normal. E no  que eu tenha medo de deixar Heather com voc, mas...
- Psiu, no quero ouvir mais nem uma palavra. - A advertncia foi feita em uma voz calma e divertida, o tom de voz que uma av carinhosa usaria. -  perfeitamente normal sentir saudade de sua filha, preocupar-se quando no est ao lado dela. Preocupar-se  o que as mes fazem melhor. 
- Bem, eu certamente sou boa nisso. Uma expert, na verdade. - Ela folheou o menu do servio de quarto, olhou ao redor e concluiu que nunca se sentira to solitria em toda sua vida. - Acho que voc no poderia pegar Heather e dirigir at Tahoe para passar alguns dias, no ? Dizem que vai comear a nevar amanh, e ela nunca viu neve antes.
A voz de Gracie suavizou-se, demonstrando simpatia.
- O tempo vai passar depressa quando o seminrio comear e voc tiver que pensar em outras coisas. Garanto que a solido que est sentindo no hotel no vai incomod-la tanto quando isso acontecer.
Espantada com o bom senso da amiga, Catrina quase pde ver o rosto sorridente de Gracie diante de si.
- Ou voc  uma psicloga de primeira, ou ento sou incrivelmente transparente.
- Talvez um pouco dos dois?
- Talvez... - Uma batida seca na porta a interrompeu. - Oh, bateram na porta. Acho que o rapaz do servio de quarto veio buscar a bandeja.
- Ento conversaremos depois, querida. No se preocupe com nada. Heather e eu ficaremos bem.
- Eu sei. Vou ligar de novo... - Um pequeno clique indicou que a ligao havia sido interrompida. - Amanh - ela terminou em um sussurro.
Enquanto Catrina colocava o fone no gancho, voltaram abater na porta.
- Tudo bem, j estou indo!
Irritada pela intromisso, ela caminhou para a porta esperando ver um sorridente empregado pronto para recolher a bandeja do sanduche de atum de vinte e cinco dlares que fora seu jantar. Em vez disso, viu apenas um par de pernas e um monte de bexigas coloridas.
Uma voz vagamente familiar soou por detrs do buqu flutuante.
- Entrega para a srta. Catrina Jordan.
- Mas o que... - Ela estreitou o olhar, separando os bales e respirando fundo. - No acredito nisso.
Rick sorriu.
- Acontece que estava passando na vizinhana...
- Ora, me d um tempo!
- Isso  exatamente o que eu pretendia fazer. - Ele deu um passo para o lado, colocando o brao que segurava os bales para dentro do quarto antes que Catrina pudesse se mover. - Muito trabalho e pouca diverso deixam-na doente, eu posso ver.
- No estou doente. - Ela fechou a porta assim que ele entrou, cruzando os braos. - E j que o seminrio s comea amanh de manh, o nico trabalho que tive at agora foi apertar o boto do elevador para trazer minha bagagem para cima.
- Carregou a bagagem sozinha? - Ele mordeu a lngua. - J ouviu falar que h carregadores no hotel?
-  caro demais.
- Essa  uma viagem de negcios. Suas despesas sero reembolsadas pela companhia.
- Oh, que timo! Isso significa que vou poder comer outro sanduche de atum amanh. Mas que excitante, meu corao est prestes a explodir.
- Vejo que no costuma viajar. Tudo bem, no se preocupe. - Ele tirou o alfinete que prendia sua gravata e ofereceu-o a ela. - Precisa de um pouco de aventura.
- Como ?
Ele gesticulou para os bales flutuantes, e ento estendeu o alfinete at que ela finalmente o aceitasse.
- V em frente. Fure um e veja o que acontece.
- A segurana do hotel provavelmente vai aparecer com as armas na mo.
- Nesse caso, eu vou poder me colocar sobre seu corpo e proteg-la com minha vida.
Ela tentou no sorrir, realmente tentou, mas o sorriso de Rick era encantador. Olhando para os bales, notou curiosa que havia pequenos pedaos de papel dentro de cada um deles.
- Devo escolher alguma cor em particular primeiro?
- J que voc perguntou... - Ele olhou para o relgio de pulso - ...amarelo.
- Amarelo? - Catrina no conseguiu conter o riso. Ela tentou manter o mnimo de compostura e ento golpeou o balo amarelo com o alfinete, notando que dois pedaos de papel retangulares flutuaram at cair no cho. - O que  isso?
- Pegue e ver.
Ela sorriu, apanhou-os ainda no ar e encarou Rick chocada depois de l-los.
- Ingressos para o show de mgica de David Copperfield.
- Tecnicamente, o sr. Copperfield prefere ser chamado de ilusionista. - Ele fingiu indiferena, mas o brilho em seus olhos revelava que a felicidade de Catrina o agradava muito. - O show ser s dez da noite, por isso s temos uma hora. Est indo devagar demais, se fosse voc, furaria logo o prximo balo.
- Est querendo dizer que h uma coisa diferente em cada um deles?
Mais uma vez Rick sorriu.
- Ora, eu no sei. Por que voc no acaba logo com isso e descobre?
Dessa vez ela nem tentou suprimir o riso. Furou um balo vermelho, apanhando imediatamente o papel que continha.
- Convite para um passeio na hora do almoo a bordo do Tahoe Queen?
- Vai ter que comer, no vai? - Ele encolheu os ombros. - O seminrio  interrompido s onze e meia e s recomea s duas da tarde. Trarei voc de volta a tempo.
- Isso  melhor que o Natal. - Empunhando o alfinete como uma espada, ela deu um passo para frente. - Une, dune, tre... - Mais uma exploso, e o contedo do balo azul caiu nas mos dela. - O que isso significa, "vale cinqenta dlares em fichas"?
- No pode sair de Tahoe sem testar os caa-nqueis. - Ele franziu as sobrancelhas. - Mas se no gosta de jogar, pode usar o dinheiro para o que quiser.
Catrina lembrou-se de ter visto as mquinas brilhantes no lobby do hotel.
- Nunca brinquei em uma mquina daquelas, nem saberia o que fazer.
- Ah, eu posso ensin-la.  muito complexo. Voc coloca as moedas em um buraco e, ou a mquina devolve um monte delas para voc ou simplesmente a engole, at que voc fique completamente sem moedas.
- Isso parece divertido, mas estranho. - Ela sorriu agradecida. - Essa  a melhor coisa que j fizeram por mim, muito obrigada.
Os olhos dele estreitaram-se.
- De nada. Agora fure o restante dos bales. Temos muitos lugares para ir e coisas para fazer.
- Tudo bem.
Excitada, Catrina foi destruindo os bales e descobrindo o contedo de cada um... havia ingressos para uma pista de ski, um convite para jantar e entradas para o teatro entre outras coisas.
- Eu... - Ela engoliu em seco, meneando a cabea - ...eu no sei o que dizer.
Rick olhou-a ansiosamente.
- Diga-me que vai estar pronta em dez minutos, assim no vamos perder o primeiro nmero do Copperfield.
- Porque est fazendo isso? - ela perguntou. Sentia a garganta ressecada como nunca. -Quero dizer, voc teve tanto trabalho. Eu no entendo. Por que eu?
Ele estudou-a por um momento e enfiou as mos nos bolsos, virando-se para admirar um quadro ao mesmo tempo em que falava:
- No tenho certeza se posso responder a essa pergunta. Por que voc? Eu no sei. Ser porque sua lembrana me acorda no meio da noite? Porque escuto sua risada quando estou no meio de uma reunio ou dirigindo em uma rodovia? No fao a menor idia. - Ele respirou fundo, erguendo a cabea o bastante para olh-la por sobre o ombro.
A expresso sincera deixou Catrina surpresa, tocando-a profundamente.
- Voc  especial, Catrina. Afeta-me de uma maneira que no entendo. Eu detesto correr, mas olho impaciente para o relgio toda manh esperando que chegue meio-dia para que eu possa ir at aquele parque e fazer jogging at minhas malditas pernas doerem. E por que fao isso?  loucura. Eu estou louco. No posso explicar, mas estar com voc me deixa feliz. - Ele suspirou, passando os dedos entre os cabelos. - Pareo um completo idiota, no ?
- No. - A palavra escapou dos lbios dela com facilidade. - Tambm gosto de estar com voc.
- Voc gosta? - Ele sorriu como um garoto, e ento recuperou a compostura. - Quero dizer, no est dizendo isso s porque estou parado aqui parecendo um touro, no ?
.Ela sorriu, meneando a cabea.
- No. Voc parece mesmo um touro, mas tambm parece adorvel.
Ele fingiu estar ofendido, mas seus olhos traam seu bom humor.
- Pelo menos no h maionese em meu nariz.
- Oh, no! - Horrorizada, ela levou o dedo ao prprio rosto, em seguida correu at o pequeno banheiro da sute e olhou o espelho. - Por que no me disse?
Depois de segui-la, Rick encostou-se no batente da porta.
- Eu fiz isso.
- Por que no me disse antes? - resmungando, ela abaixou-se para lavar o rosto e apanhou uma toalha. - Isso  to embaraoso quanto ficar com um pedao de salsa no dente na foto de formatura.
- Isso aconteceu com voc tambm? Ora, ora, realmente somos almas gmeas.
Catrina atirou a toalha no peito dele.
Rick apanhou-a no ar.
- Espero-a no lobby, em dez minutos.
- Quinze.
- Mulheres! - ele exclamou com um sorriso. -  sempre a mesma histria...

O ar frio batia no rosto de Catrina, revigorando-a e, ao mesmo tempo, excitando-lhe o esprito. A paisagem das montanhas ao redor do lago Tahoe era realmente linda. Cada dia nas sierras era imprevisvel.
Lado a lado, Rick envolveu-a pelos ombros em um abrao protetor.
- Est com frio?
Ela assentiu.
- Estou congelando.
- Ento vamos entrar logo no restaurante. Oferecem um buf magnfico.
- No posso comer e me divertir ao mesmo tempo. Essa pode ser a nica chance que terei de ver um lago gelado no meio das montanhas.
- Pode demorar horas para voltar a nevar. Alm disso, nada impede que voc veja tudo l de dentro pela janela, no ?
- No, mas como eu iria sentir os flocos de neve em minha pele, estando l dentro?
- Ponto para voc. - Rick olhou ao redor, para os poucos aventureiros que tinham trocado o aquecimento central da cabina pelo vento gelado. - Pelo menos no somos os nicos masoquistas no barco... - As palavras dissiparam-se lentamente quando o olhar dele atingiu certo ponto do deque. Suas sobrancelhas arquearam-se em uma expresso satisfeita.
- Rick,  realmente voc?
A voz feminina ecoou atrs de Catrina, e, antes que ela pudesse se mover, uma mulher sorridente j se atirava nos braos de Rick.
- Oh, meu Deus, quanto tempo faz? - ela ronronou, abraando-o com fora.
Ele retribuiu ao abrao, provocando inconscientemente uma onda de cime em Catrina.
- Muito tempo, Janet, muito tempo. - Ao dizer aquilo, Rick beijou levemente a mo da recm-chegada. - Est ainda mais adorvel que na ltima vez.
Aquilo era redundante. A mulher era positivamente estonteante, com cabelos castanhos e olhos azuis to lindos que Catrina no pde deixar de admirar. Era rude encarar desconhecidos, ela sabia, mas simplesmente no era capaz de se conter. Nunca tinha visto uma mulher to linda em toda sua vida.
O riso de Janet era leve, delicado e sincero.
- Voc sempre soube dizer a coisa certa. - Ao riso seguiu-se um sorriso franco. - Senti sua falta.
- Eu tambm senti sua falta.
A resposta foi sincera, sincera demais para o gosto de Catrina. Uma nova onda de cime irracional acometeu-a. E essa sensao foi substituda pelo embarao quando o olhar da mulher desviou-se em sua direo.
Catrina fez um gesto casual e tolo, levando a mo aos cabelos. Ela no sabia porqu, mas algo lhe dizia que sua aparncia devia estar terrvel, desarrumada e despenteada.
Antes que ela pudesse dar um passo para o lado, escondendo-se atrs de Rick, ele a deteve, segurando-a pela cintura.
- Janet, esta  Catrina Jordan.
Com esforo, Catrina conseguiu sorrir.
- Prazer em conhec-la.
- Igualmente.
O sorriso da mulher agora parecia um tanto triste, talvez invejoso, mas ainda assim sincero. O olhar dela baixou imediatamente para o dedo de Catrina, como se procurasse um sinal, talvez um anel, e ento voltou imediatamente a fixar-se em Rick.
- Os anos trataram bem meu solteiro predileto, pelo que vejo. - Ela meneou a cabea, mandando com o olhar uma mensagem que seria visvel at mesmo para um homem cego. - Continua tendo fobia dos sagrados laos do matrimnio?
Rick no parecia notar que a mulher o olhava com tamanha avidez.
- Estou fazendo um tremendo favor s mulheres - ele replicou, sorrindo. - Voc entre todas as pessoas deve saber que marido horroroso eu daria.
Catrina ficou em alerta. Voc entre todas as pessoas? Era bvio que aqueles dois tinham experimentado uma intimidade muito maior que o atual comportamento dele indicava.
Mas para sua surpresa, Janet riu do comentrio de Rick.
- Voc daria um marido maravilhoso. O nico problema  essa sua proverbial ojeriza a compromissos.
Os dois riram.
- Ah, mas se no fosse por isso, voc no teria encontrado o homem de seus sonhos, teria?
Foi como se Janet houvesse sido atingida por um punhal. Ela piscou, mas antes disso Catrina pde perceber que aquela mulher j estivera profundamente apaixonada por Rick. Talvez at continuasse a am-lo. Entretanto, um sorriso gentil e um olhar significativo bastaram para que a mulher deixasse claro para Catrina que tudo aquilo fazia parte do passado.
Aparentemente, Rick no notou a troca de olhares.
- E ento, onde est o sortudo?
Janet mordiscou o lbio inferior e sorriu sem jeito, desviando o olhar.
- Ele est ocupado com outras coisas. O filho do primeiro casamento... isso  um assunto delicado, voc entende, e a ex-mulher... - Ela deixou escapar uma risada nervosa. - Uma mulher adorvel, na verdade... o fato  que ela esqueceu de contar a ele que o garoto estava doente, por isso fizemos planos para celebrar nosso aniversrio aqui e... - Ela umedeceu os lbios, como se aquilo a ajudasse a evitar o choro.
As sobrancelhas de Rick arquearam-se por um momento.
- Ele estar aqui dentro de um ou dois dias - Janet continuou com uma nfase exagerada. - Talvez ento voc possa conhec-lo.
Rick segurou na mo dela.
- Talvez.
- Espero que esquente um pouco at o final da semana. Meu marido realmente odeia o frio. - Janet afastou a mo e enfiou-a no bolso do sofisticado casaco. Ela desviou o olhar para o lago e, quando voltou a encarar Rick, seu olhar era firme. Tinha recuperado o autocontrole. - Alguns amigos me esperam. Foi realmente maravilhoso v-lo de novo... e foi timo conhec-la, Catrina.
Catrina aceitou a mo que lhe era estendida. Tinha gostado daquela mulher.
Seguiu-se um silncio embaraado e o inevitvel "precisamos nos ver a qualquer hora", antes de Janet encolher os ombros e desaparecer pela porta da cabina mais prxima.
Rick permaneceu olhando naquela direo por algum tempo. Sua expresso era pensativa e um tanto triste, e isso tocou Catrina.
-  uma mulher adorvel - ela comentou.
- Sim - ele concordou com um suspiro, sorriu, e ento beijou levemente atesta de Catrina. - Janet  uma das melhores pessoas que j conheci. Ela merece ser feliz.
Catrina achou melhor no comentar que talvez o motivo da infelicidade de Janet fosse o prprio Rick.
- Vocs dois parecem ter sido muito ntimos.
- Ns fomos.
- Vocs viveram juntos ou algo assim?
Ele parecia chocado.
- No, claro que no!
Mesmo sem saber por qu, ela sentiu-se aliviada.
-  que tive a impresso de que o relacionamento de vocs havia sido srio.
- Srio?
A expresso dele indicava que realmente no fazia a menor idia do que aquela palavra significava.
- ramos muito prximos... grandes amigos.
- S isso?
- O que mais poderia haver? 
- Amor.
Rick empalideceu.
- Creio que no entendo essa palavra do mesmo jeito que o restante da sociedade. Sim, eu amei Janet, ainda a amo. Amo todos meus amigos e andaria sobre o fogo por qualquer um deles. No h nada mgico sobre isso, nenhum misticismo romntico. O amor  um sentimento lindo demais para no ser compartilhado com todos a quem queremos bem.
Catrina considerou aquelas palavras e tentou ignorar o tremor de excitao que passou por seu corpo.
- Pelo que entendi, voc nunca esteve realmente apaixonado.
- No sei o que isso significa. 
Ela o encarou.
- Nem eu mesma tenho certeza. Amor  uma palavra muito vaga, quando pensamos a respeito dela. Dizemos que amamos muitas coisas e pessoas, e usamos a palavra sempre que nos convm.
Por um momento, Rick simplesmente encarou-a em silncio. E ento um sorriso surgiu lentamente em seus lbios, emprestando um ar incrivelmente sensual a sua expresso.
- Nossa, isso foi profundo. Sabia que voc no era s um rostinho bonito.
- Est zombando de mim! - Ela riu, nem um pouco perturbada com o comentrio. - Tenho a tendncia de falar demais s vezes. Por favor, fique  vontade para me dizer a verdade quando isso o incomodar.
- No estava falando demais. O fato  que concordo com voc. O fato  que a palavra amor  to usada que duvido de que qualquer um possa realmente defini-la.
- Talvez por que a definio nunca seja a mesma para duas pessoas. - Ela suspirou, olhando para as guas agitadas do lago. - Talvez a definio mais profunda seja o amor incondicional dos pais pelos filhos.
- Somente alguns pais so assim. - Rick tambm passou a olhar para a gua. - As mes sim, essas so um presente de Deus para o universo. Os pais so apenas uma necessidade biolgica.
O tom casual da voz tentava ocultar a dor que aquelas palavras continham, mas a expresso de Rick o traiu por um segundo.
- Por que diz isso?
- Por minha prpria experincia. O relacionamento entre voc e seu pai era bom?
Uma mecha de cabelo caiu sobre o rosto de Catrina. O vento comeava a aumentar de intensidade.
- Meu pai foi embora quando eu tinha trs anos. A verdade  que mal me lembro de seu rosto.
Rick assentiu.
- O meu tambm me abandonou quando eu tinha cinco anos, por isso ainda me lembro vagamente de o um homem chegando no fim da noite, sempre cheirando a lcool. Minha me divorciou-se dele, e ento tentou encontrar um... pai adequado para mim. 
- E ela conseguiu?
- Ela voltou a se casar, se  isso que quer saber. - Rick comeou a massagear a prpria nuca, claramente desconfortvel com aquele assunto. - Meu padrasto era um sujeito legal. Ele trabalhava muito, no tinha vcios e nunca gritava comigo ou com minha me. De fato, mal falava conosco. Parecia mais interessado em ter uma cozinheira e uma empregada domstica do que uma famlia. Sempre tive a sensao de que minha presena o irritava. 
- Voc conseguiu melhorar o relacionamento com seu padrasto?
- No o vejo desde que tinha sete anos. Mame divorciou-se dele tambm. - O sorriso de Rick no era particularmente sincero. - Parece que a presena dele a irritava quase tanto quanto a minha o irritava.
- Sinto muito. 
- Por qu? Isso  a natureza humana, acho eu. Eu ousaria dizer at mesmo que a maioria dos homens simplesmente no foi feita para a paternidade. Voc no concorda?
- Bem, no sei ao certo o que dizer, mas temo que minha prpria experincia no tenha sido muito melhor que a sua. - Catrina sentiu a garganta apertar-se, e ento encolheu os ombros, fingindo indiferena.  O pai de minhas irms tambm foi embora antes que eu nascesse. Minha me sempre disse que a vida era assim. Os homens fazem os bebs, e as mulheres cuidam deles.
Rick assentiu.
- No parece muito justo, no ? 
- No. O fato  que nunca acreditei muito nela. Quero dizer, tive amigas cujos pais seriam capazes de fazer qualquer coisa por suas famlias. S queria que minha me houvesse encontrado um homem assim em vez de precisar trabalhar at morrer para criar as filhas sozinha. - Catrina suspirou. - No sei por que estou lhe dizendo tudo isso. Nunca conversei sobre o assunto com algum, exceto com minha irm Laura.
Ele estendeu o brao devagar, afastando a mecha de cabelos da frente dos olhos dela com gentileza.
- Como eu disse,  bvio que somos almas gmeas. Temos as mesmas cicatrizes, somos realistas sobre o que esperar da vida, mas no deixamos que nosso passado nos deixe abatidos.
- Fale por voc. J me senti muito abatida com isso.
O comentrio foi feito em um tom brincalho, mas em vez de rir com ela, Rick permaneceu srio.
- No, voc no se abate - ele disse suavemente. - Acho que s fica amedrontada... e o medo pode nos paralisar.
- Talvez. - O corao de Catrina disparou quando ela sentiu o toque quente dos dedos dele em seu rosto. - Na verdade, sinto-me muito melhor hoje em dia.
Ele sorriu.


CAPTULO VII

- Quem poderia pensar que uma mquina to pequena pudesse comer duzentas moedas em trinta minutos - Catrina murmurou amuada.
Rick parou ao lado de um pinheiro cuja copa j estava completamente coberta pela neve.
- Para ser justo, devo dizer que a mquina devolveu algumas moedas vrias vezes, mas que uma certa mulher de olhos selvagens voltou a jogar com um abandono apaixonado que foi, usando a expresso certa, incrivelmente sensual.
- Certo, certo, pode me criticar. Mas ver as luzes piscando, ouvir as moedas caindo na bandeja e ter vises malucas de como poderia ficar rica... isso  demais para uma garota do campo. - Virando-se para proteger o rosto do vento frio, Catrina se apoiou no brao de Rick.  Mas foi uma noite maravilhosa. Na verdade, os ltimos dois dias foram magnficos. Nunca me diverti tanto.
- Fico feliz. -  luz do luar, o sorriso dele parecia ainda mais brilhante. - Espero que tenha ajudado a suportar melhor aquele seminrio chato.
- Para ser franca, o seminrio foi fascinante. O programa de interface  um dos mais complexos com que j trabalhei. Vou ser sincera, no comeo achei que minha inaptido tecnolgica ia me fazer ir mais cedo para a fila dos desempregados. Eu simplesmente no conseguia entender como as informaes tcnicas e o oramento podiam ser interligados, mas agora tudo parece muito simples.  um instrumento fascinante.
- Eu prprio ainda no o entendo por completo. - Rick diminuiu o ritmo dos passos, usando a mo livre para acariciar levemente os dedos da mo de Catrina, que continuava apoiada em seu brao. - Felizmente, as pessoas talentosas que trabalham para mim entendem, e so gentis o bastante para que tudo chegue praticamente pronto em minhas mos.
- Voc realmente respeita seus empregados, no ?
- Claro. Um negcio bem-sucedido deve, basicamente, funcionar como uma famlia. Cortesia e respeito ajudam a criar um ambiente de trabalho onde todos se sentem bem. - Ele a olhou de relance. - Por qu, por acaso no se d bem com algum do escritrio?
- Eu? Oh, santo Deus, no. Todos esto sempre dispostos a interromper o que esto fazendo para me ajudar.  realmente um lugar muito bom para se trabalhar, Rick.
Ele deixou escapar um suspiro, seu alvio era evidente.
- Fico feliz por ouvir isso. Quero que voc seja feliz.
- Quer que todo mundo seja feliz?
- Isso  errado?
- No. Um pouco ingnuo, talvez, mas certamente no  errado.
- Ingnuo? Eu? - A risada foi genuna, mas continha um certo nervosismo, que fez Catrina perceber que tinha tocado em um ponto nevrlgico. - Ningum nunca me acusou de ingenuidade antes. Uma observao interessante.
Depois de encolher os ombros, ele retirou a mo dela do prprio brao e segurou-a com delicadeza, comeando, em seguida, a caminhar pela trilha estreita.
Ao acompanh-lo, Catrina estudou-lhe cuidadosamente o perfil. O rosto era msculo, anguloso, sem nenhum trao de suavidade. Aquilo parecia uma incongruncia, no combinava com um homem cujos olhos sempre brilhavam com ternura e cujos lbios estavam sempre prontos a curvar-se em um sorriso afetuoso.
Rick Blaine realmente no era um homem delicado, mas tambm no fazia o gnero "duro". Sem dvida, era uma personalidade complexa e, s vezes, indecifrvel. Em vrios sentidos, era o homem mais incomum que Catrina j conhecera. Com certeza o mais generoso, o mais gentil, o mais sincero. Todos os que se aproximavam transformavam-se em amigos de toda a vida.
Rick Blaine era o sonho de toda mulher, a personificao daquele lindo e adorvel prncipe de contos de fadas em que as garotinhas solitrias sempre pensavam. Mas sob aquele exterior polido, era possvel entrever a sombra de um guerreiro implacvel, um homem atormentado pela vida que se negava a entregar os pontos e que escondia seus medos secretos. Tambm era um homem pelo qual Catrina poderia se apaixonar.
Talvez aquilo j houvesse acontecido...
O pensamento fez sua pulsao acelerar-se, aterrorizando-a de maneira irracional. O amor era um jogo para tolos. No tinha trazido nada, a no ser dor, para Catrina, e o mesmo acontecera para sua me no passado. Precisava lembrar-se do juramento que fizera a si mesma de nunca mais deixar o corao ditar suas atitudes.
A voz grave e profunda de Rick a trouxe de volta para a realidade.
- Sempre adorei essa pequena baa - ele murmurou. - As rochas so cobertas por lquen, e ficam admiravelmente verdes  luz do sol... Pena que esteja escuro demais para que voc perceba como as guas so lmpidas, ou para apreciar a variedade de plantas aquticas que nascem por toda parte. Vamos ter de voltar pela manh para ver tudo isso.
O desnimo tomou conta da voz de Catrina.
- No posso. Meu vo partir bem cedo.
- Vos podem ser mudados. - Virando-se para encar-la, Rick manteve um dos braos segurando-a pela cintura, enquanto erguia-lhe delicadamente o queixo com a mo livre. - E se voc realmente quiser uma aventura, pode me dar o privilgio de ser seu piloto particular na viagem de volta para Los Angeles.
- Voou para c sozinho?
- Sim, e meus braos ficaram muito cansados...
Apesar da penumbra do luar, Catrina percebeu o brilho zombeteiro nos olhos dele.
- Essa piada  muito, muito velha, sabia?
- Sim, mas voc devia ter rido assim mesmo. Seria bom para meu ego. - Inclinando a cabea, Rick roou os lbios na testa dela, uma carcia casual que a fez sentir um arrepio dos ps  cabea. - Pense nisso - ele sussurrou, agora muito prximo do rosto de Catrina. - Depois que voc dormir quanto quiser, eu a levarei para comer panquecas com gelia de cereja, creme e mel. - Ele fez uma pausa, beijando-a na sobrancelha, na tmpora, na pele sensvel atrs da orelha.  Ento ns poderemos passar a manh inteira juntos, ou o dia inteiro se preferir... e quando estiver pronta, bastar colocar combustvel no avio e partir em direo s nuvens. S voc... - os lbios agora roaram o pescoo dela - ...eu... e Deus como co-piloto,  claro.
Catrina tremeu quando os lbios quentes traaram o contorno de seu pescoo muito devagar.
- Isso parece... maravilhoso. - A voz falhou. A ltima palavra no passou de um sussurro estrangulado.
- H muito mais que eu gostaria de mostrar para voc. - Os lbios dele pareciam estar por toda parte, fazendo sua pele queimar como um incndio na floresta. A pulsao de Catrina parecia os instrumentos de percusso de uma orquestra. - Tanta coisa que gostaria de compartilhar...
- E-eu... eu realmente no devo.
Se pudesse raciocinar com clareza, Catrina perceberia que permanecer mais tempo ali estava definitivamente fora de questo. Se seu corao no estivesse batendo como um tambor, se sua mente no entrasse em colapso cada vez que os lbios de Rick tocavam em sua pele, ela certamente lembraria que havia prometido apanhar Heather bem cedo para que Gracie ficasse com a tarde livre.
Mas Catrina no estava pensando direito. Na verdade, nem sequer estava pensando. Entregava-se de corpo e alma a sensaes que acreditava estarem mortas havia muito tempo, sensaes que tinham sido trazidas  tona pelo toque especial daquele homem.
Foi preciso um esforo gigantesco para que ela conseguisse balbuciar uma frase entrecortada.
- E-eu... eu preciso fazer um telefonema agora mesmo.
O sorriso de Rick ampliou-se como que por mgica.
- Mas veja s que sorte... Tenho um telefone aqui mesmo, no bolso. - Ele retirou o aparelho da jaqueta de couro e entregou-o.
Catrina meneou a cabea, sorrindo.
- Nada como estar preparado para qualquer eventualidade, certo?
- Ora, eu fui escoteiro, voc sabe, e fui muito bom. A no ser por aquele negcio de fazer fogo com gravetos e pedras. Nunca consegui fazer aquilo. - Ele revirou os olhos, fazendo-a rir. - De qualquer forma, sempre levei um isqueiro no bolso para as eventualidades.
Ela abriu a telefone e discou o nmero de Gracie.
- Um escoteiro trapaceiro? Isso no  um pouco paradoxal?
Rick fingiu indignao.
- Eu no trapaceava, apenas usava uma criativa inovao tecnolgica para conseguir melhores resultados.
- Ento  assim que explicam esse tipo de coisa hoje em dia? - O telefone tocou vrias vezes. Catrina arqueou as sobrancelhas, olhando para o relgio de pulso quando a secretria eletrnica atendeu. - Que estranho - murmurou. - Ela certamente devia estar em casa.
- Para quem est telefonando? - ele perguntou curioso.
- Minha bab. - O sinal da secretria tocou, por isso Catrina comeou a deixar uma mensagem. - Ol, sou eu. A julgar pelo horrio, voc provavelmente est dando banho na menina, por favor, quando acabar de sec-la ligue para mim no... espere um minuto, no sei o nmero desse celular.
Ela virou-se para Rick, emudecendo imediatamente. Mesmo na penumbra, podia ver que o rosto dele tinha ficado totalmente plido.
- Sua... bab? - O horror no olhar de Rick era perturbador. - Voc tem uma filha?
O corao de Catrina ficou apertado. J havia visto aquela expresso antes, no rosto do ex-marido no dia em que informara estar grvida...
Levou um momento para que conseguisse recuperar a compostura.
- No importa - ela sussurrou no telefone, imaginando que Gracie estranharia a voz trmula quando ouvisse a mensagem. - Eu ligarei mais tarde.
- Uma filha - Rick murmurou para si mesmo. Em seguida passou os dedos entre os cabelos para pente-los. - Eu no sabia...
Catrina fechou o celular e o devolveu, tentando desesperadamente manter uma expresso neutra no rosto.
- No  segredo. Presumi que voc j houvesse olhado minha ficha do departamento pessoal. Minha filha est listada como beneficiria, dependente no convnio mdico.
A sugesto o pegou de surpresa.
- No olhei seu arquivo pessoal. Isso seria invaso de privacidade.
- Entendo. - Ela conteve um suspiro, mantendo um exterior frio que no traa seu tormento ntimo. - Devo presumir que crianas representam um... h... inconveniente para voc?
- Ah, no, claro que no... verdade.
Aquilo era uma mentira deslavada, e Catrina sabia disso.
Olhando-a de relance, Rick concluiu que era melhor agir com mais sinceridade. Ele suspirou.
- Bem, devo admitir que no tenho passado muito tempo com crianas ultimamente... Ora, sim, eu admito, tenho at evitado fazer isso. Essa coisa de figura paterna me d medo. As crianas me olham com esperana, como se eu fosse entrar em sua vida de uma hora para outra e me transformar no salvador de suas pequenas existncias... Isso realmente me deixa apavorado.
Catrina mordiscou o lbio inferior.
- Gostaria de ter descoberto antes.
- Eu teria dito se soubesse que voc tinha uma filha. Nunca a mencionou em nossas conversas.
- Claro que mencionei. Falo de Heather o tempo todo.
- Pensei que estivesse referindo-se a uma de suas irms. - Os olhos dele arregalaram-se. - Heather? Oh, Deus... Descreva a menina para mim.
- O qu? Por qu?
- Diga-me que ela no tem dois anos, grandes olhos castanhos, cabelos loiros cacheados e um pequeno arranho em uma das bochechas.
O queixo de Catrina quase caiu no cho.
- Por acaso viu a foto dela que guardo na carteira?
Rick gemeu, sentando-se pesadamente no enorme tronco de um cedro que estava prximo.
- No, eu a conheci pessoalmente.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Catrina.
- Est me deixando com medo.
Ele meneou a cabea, passando os dedos nervosamente entre os cabelos outra vez.
- Digamos que sua bab favorita e eu temos mais em comum do que voc imagina...
- Como conheceu Gracie?
- Bem... - Rick respirou fundo. - Prepare-se para um choque, Catrina. No vai gostar nem um pouco disso...
E, como ficou provado mais tarde, aquele frio vaticnio no podia estar mais correto.

Trs horas mais tarde, Gracie abriu a porta com um sorriso, aparentemente sem ficar nem um pouco intimidada pelos dois rostos furiosos que viu diante de si.
- Bem, mas que surpresa maravilhosa! Minhas duas pessoas favoritas de uma s vez.
- Pare com isso, mame. J descobrimos seu esquema. - Rick cruzou os braos diante do corpo assim que ps os ps no hall de entrada. - De todos os planos irritantes e intrometidos de casamenteira que inventou no passado, sem dvida esse  o mais maquiavlico e malicioso.
Gracie deu um passo para trs, fechando a porta sem parar de sorrir por um segundo.
- Mas sobre o que est falando, querido? No me lembro nem sequer deter sugerido que voc e Catrina se encontrassem, quanto mais... - Seu sorriso ampliou-se, a despeito do bvio esforo para manter a compostura - ...bancara casamenteira. Francamente, estou chocada com essas acusaes.
- Oh, por favor, no banque a inocente - ele replicou com desdm. - Lembra-se da soprano que usava a linguagem de sinais para no danificar a preciosa voz?
Dessa vez, Gracie teve que conter o riso.
- Voc gosta de pera, e detesta gente que fala demais. Achei que vocs dois tinham muito em comum.
- Eu e aquela mulher-aranha que enviuvou trs vezes, sempre em circunstncias suspeitas?
- Uma mera coincidncia. Ela e as trs crianas mereciam um homem de constituio forte.
- Isso sem mencionar um seguro de vida bem lucrativo...
Gracie parecia indignada.
- Certamente no o eduquei para ser uma pessoa to desconfiada.
- O que me diz da ginasta grvida com sete irmos, todos determinados a cas-la com o primeiro homem disponvel que aparecesse? Ou a operadora da bolsa de valores que queria que eu recitasse relatrios financeiros nos momentos mais ntimos, a engenheira aeronutica, me de gmeos, que me interrogou sobre tcnicas de mudana de fralda em nosso primeiro encontro e a...
Gracie ergueu um dos braos, interrompendo-o.
- Eram todas jovens perfeitamente adorveis, querido. No pode culpar uma me por tentar, no ?
O queixo de Rick ficou imvel, congelando uma expresso que em outras circunstncias seria cmica.
-  claro que posso, e  exatamente o que estou fazendo. Voc prometeu parar depois que aquela loira piromanaca incendiou minha cala!
- Eu parei, querido. S porque voc acabou interessando-se por uma jovem maravilhosa que trabalha em seu escritrio, e que por coincidncia  uma grande amiga minha, no pode sair por a... Ora, no preciso me explicar. O destino nos prega algumas peas de vez em quando.
Catrina observava a discusso entre me e filho calada, perguntando-se por que nunca tinha notado a semelhana entre os dois. Rick tinha o mesmo nariz romano de Gracie, os mesmos olhos incrivelmente azuis...
E, a despeito da bvia exasperao dele e da inocncia fingida da me, a afeio que os unia era inequvoca. Em uma outra situao, talvez Catrina at achasse divertido assistir a uma batalha verbal dos dois.
Mas no momento estava furiosa demais para se divertir.
- Pensei que ramos amigas, Gracie - ela ouviu-se dizendo.
Ao ouvi-la, Rick e Gracie silenciaram, virando a cabea ao mesmo tempo em sua direo.
O rosto da amiga ficou plido imediatamente.
- Ns somos amigas, querida. A essa altura j devia saber que a adoro.
- Amigas no mentem nem enganam. - Catrina mordeu o lbio, cerrando os punhos em um sinal claro de nervosismo. - Quando me mandou atrs daquele emprego, evitou deliberadamente mencionar que seu filho era o dono da companhia.
- Foi Rick quem a contratou?
- Bem, no, mas...
- Claro que no foi. Ele nunca cuida pessoalmente desse tipo de assunto, e voc no teria conseguido o emprego a no ser que as pessoas certas a considerassem competente. Por que eu deveria mencionar que meu filho tambm trabalhava l?
Catrina agora sentia calor, sua pele parecia queimar. 
- Conversei com voc sobre ele, contei sobre nosso relacionamento. E voc ficou a, sentada, rindo por dentro, e nunca me contou... - A voz dela falhou. Teve que desviar a cabea para evitar o olhar horrorizado de Rick.
Ele deixou escapar um gemido. 
- Conversou com minha me sobre... ns?
- Eu no sabia que ela era sua me.
Gracie piscou. 
- No tenha medo, Rick, Catrina no foi indiscreta. Definitivamente no  esse tipo de garota. E voc tambm no foi. A no ser quando mencionou algumas partes da anatomia dela, e quando disse que devia haver alguma lei impedindo mulheres como Catrina de usar calas de lycra justas...
Catrina engasgou.
- Voc disse isso para sua me? :
- Santo Deus, mate-me com um raio agora! - Rick resmungou, esfregando os olhos com as costas das mos. - Ser que minha vida se transformou em um circo?
- Bah... - Embaraada e frustrada, Catrina cruzou a sala de estar e comeou a colocar os brinquedos da filha dentro de uma sacola. - Isso  insano. Mas, pensando bem, por que no? Eu pareo atrair problemas como um m, no  verdade? Pelo menos tenho de ter aprendido a no me envolver outra vez em um relacionamento complicado como esse. Desse ponto de vista, devo at ficar agradecida...
- Complicado? - Rick quase no acreditou que a voz estrangulada que ouvira sara de seus prprios lbios. - No acho que nosso relacionamento possa ser descrito como complicado. 
Do outro lado da sala, Catrina ergueu-se para encar-lo. Seus olhos faiscavam como diamantes, e Rick nunca a vira to linda.
- Como voc o chamaria? Algumas horas atrs estava dizendo que ns ramos almas gmeas. Agora est a, indignado, discutindo sobre um plano maquiavlico para nos manipular como se fssemos dois idiotas.
Ele no podia negar aquilo.
- Sim, mas isso  um problema entre eu e minha me que no pra de interferir em minha vida.
-  exatamente o que eu quis dizer. - A fria desapareceu do olhar dela, agora substituda por um desnimo incrvel. - Heather e eu somos apenas peas de xadrez em um tabuleiro no qual vocs dois esto jogando.
A expresso frustrada de Catrina fez o corao de Rick apertar-se. Antes que fosse possvel dizer qualquer coisa para tentar explicar o inexplicvel, ela girou sobre os calcanhares e desapareceu pelo corredor que levava aos quartos.
Subitamente, ele sentiu um arrepio desagradvel na espinha. Conteve um suspiro, virando-se para encarar a me que, naquele momento, j no tinha a mesma expresso triunfante no rosto.
- Viu o que voc fez?
Gracie meneou a cabea devagar, tristemente.
- No fiz nada, Rick, a no ser mandar uma excelente contadora para sua companhia e manter minha boca fechada. Foi voc que ficou intrigado, e talvez at encantado, quando percebeu que Catrina era a nica mulher do mundo que no se jogava a seus ps como uma escrava.
- Isso  jogo sujo. - O corpo dele contraiu-se, como se houvesse recebido um murro na boca do estmago.
- Mas  a pura verdade. - Ela suspirou. - No comeo, eu honestamente, achei que voc se sentiu atrado pelo desafio que ela representava. Talvez no estivesse enganada, afinal. Voc venceu outra vez, parabns... Pelo olhar de Catrina, pude notar que ela sente algo muito especial por voc. Caso contrrio no estaria sofrendo tanto.
Antes que Rick pudesse responder, Catrina irrompeu na sala, carregando a menina adormecida em um dos braos e a sacola no outro.
- Obrigada por cuidar dela, Gracie. Eu realmente preciso agradecer.
- A casa  sempre sua, querida.
- Gostaria de agradec-lo tambm - ela dirigiu-se a Rick sem um trao de sarcasmo. - Passei momentos muito especiais em Tahoe. Voc  muito... generoso.
Ele deu um passo para a frente, estendendo a mo.
- Catrina, espere...
- No, eu realmente preciso levar Heather para casa. Ela est exausta, e sentiu muito minha falta.
- Ento deixe-me lev-las.
- Obrigada, mas meu carro est l fora, Gracie permitiu que eu o deixasse na garagem. - Quando passou por ele, Catrina deixou para trs um aroma que misturava o cheiro do beb com seu prprio perfume.
O efeito que aquilo produziu em Rick foi devastador. Ele adiantou-se, abrindo a porta para que ela passasse.
- Eu telefonarei mais tarde. Precisamos... conversar.
Catrina encarou-o com um olhar que era um misto de desapontamento e sabedoria adquirida com o passar dos anos.
- Acredite quando eu digo que no temos nada para conversar.
Aturdido, Rick ficou parado na porta at que as luzes do carro dela desaparecessem na primeira curva.
- Acho que ela acabou de me dispensar - ele murmurou lentamente.
Gracie aproximou-se com passos hesitantes.
- Foi melhor assim, filho.
- Obrigado por me confortar tanto, me... Eu realmente sou assim to horrvel?
Os olhos da senhora ficaram midos.
- No, voc no  horrvel. Apenas protege demais o prprio corao, e tem suas razes para agir assim. Catrina tambm 'tem as dela. A verdade  que nunca pensei em aproxim-los deliberadamente, porque sei que aquela moa teve uma vida muito difcil, e merece algum que seja capaz de ficar a seu lado, ajudando-a a continuar lutando. Ela no merece um homem que desista com facilidade...
- O que a faz pensar que sou assim?
Ela acariciou o filho no rosto, encarando-o com ternura.
- Voc  meu filho, e eu o amo, mas ambos sabemos que nunca foi capaz nem sequer de comprar um peixe, s porque isso significaria uma responsabilidade adicional em relao a outro ser vivo...
- Talvez eu apenas estivesse procurando o peixe certo.
- Talvez. - O brilho do olhar penetrante da mulher era agora indecifrvel. - E talvez voc mesmo seja como um peixe assustado, que tem medo de nadar em um aqurio desconhecido.
A metfora precisa provocou um arrepio que percorreu toda a espinha de Rick.
- Voc se acha muito esperta, no ?
Gracie sorriu.
- Fui eu quem o educou, lembra-se?


CAPTULO VIII

O grito de Heather parecia ter o poder de atingir os nervos de Catrina.
- Shh... eu sei que est com fome, amor. Espere s at a mame esquentar o espaguete... - Seu espirro foi forte o bastante para fazer a criana saltar. Depois de alguns instantes voltou a espirrar e teve que ir at o banheiro pegar um leno de papel para assoar o nariz.
Heather acompanhou-a de perto.
- Quero biscoito - a menina resmungou. - Mas antes, mame, quero suco.
Catrina apoiou-se na pia, sentindo o corpo doer miseravelmente. Sua pele queimava de febre, e o estmago revirava-se como se houvesse engolido um furaco.
- Poder comer biscoitos depois do jantar.
- Quero agora! - Para reforar a exigncia, Heather jogou-se no cho e recomeou a gritar.
Gemendo, Catrina segurou a cabea entre as mos em um esforo intil para tentar amenizar a dor. Voltou  cozinha a tempo de ver que a gua fervia, e agradeceu aos cus pelo fato de ter encontrado espaguete instantneo na loja de convenincia. Porm, antes que pudesse colocar a comida no prato da filha, ouviu a campainha da porta soar.
Pegando a zangada filha nos braos, ela apressou-se em cruzar a sala de estar murmurando palavras de conforto, que obviamente foram ignoradas pela menina, cujo rosto estava vermelho de tanto chorar. De alguma forma, conseguiu abrir a porta e, um instante depois, deparou-se com vacilantes olhos azuis.
Rick estava sem palet, com a gravata afrouxada e as mos enfiadas nos bolsos da cala.
- Ol.
Ela conseguiu retribuir o cumprimento antes que Heather recomeasse a chorar. Quando respirou fundo, porm, Catrina notou que o recm-chegado j havia entrado na sala sem pedir licena.
Dez dias haviam se passado desde a fatdica viagem para Tahoe. Rick tinha partido no dia seguinte para Nova Orleans, a fim de fechar um lucrativo contrato para a empresa e, desde ento, os dois no tinham mais se visto.
- Achei que no ia voltar antes do final da semana.
- O negcio foi fechado. No havia mais motivo algum para que eu ficasse l.
Assentindo com um gesto de cabea, Catrina evitou encar-lo. Sabia que a prpria aparncia devia estar terrvel por causa da gripe, mas sentia-se exausta demais para se importar com tais detalhes.
- De qualquer forma, parabns. Conseguiu mais uma faanha. Frank estava quase fora de si de tanta alegria. Ele acredita que esse provavelmente ser o contrato mais lucrativo fechado nesse ano.
Rick no fez comentrio algum sobre o assunto, limitando-se a umedecer os lbios enquanto olhava de relance para Heather.
- Sei que  maldade - ele disse em voz baixa -, mas fiquei aliviado quando descobri que voc estava doente.
- Tem razo. - Catrina sentia dificuldade para reconhecer a prpria voz, que parecia soar vinda de outra pessoa. - Isso  muito perverso.
- Quando no a vi na cafeteria hoje pela manh, tive medo da possibilidade de voc estar me evitando. - Ele tentou sorrir, mas acabou falhando miseravelmente. - Fiquei aliviado ao descobrir que tinha faltado por causa de uma gripe.
Catrina examinou atentamente o rosto dele. Tinha mesmo memorizado com detalhes aquelas feies duras, que estavam atormentando seus sonhos noite aps noite. Aquele era o homem que havia se insinuado como um ladro em sua vida, dominando-lhe a mente por completo... O homem que no tinha lhe deixado outra alternativa a no ser o rompimento.
- Minha me disse que voc no tem ido  livraria ultimamente. - Rick fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cautela. Era um comportamento estranho, especialmente em algum que sempre parecia estar to seguro de si. - Ela sente sua falta, voc sabe.
- Sim, eu sei. - Catrina ajeitou Heather no colo, ainda examinando o visitante, que no momento estava . parado ao lado de um sof coberto de brinquedos. - No estou zangada com ela. 
- Mas est zangada comigo...
Catrina pensou por um momento.
- No, na verdade no estou. A verdade  que no tenho tempo para voc, Rick. Tenho uma filha para criar, uma criana que  minha prioridade. No tenho tempo para algum que no compreenda essa prioridade... e nem queira compartilh-la.
- Entendo perfeitamente. - A voz dele era trmula, at mesmo vacilante. - Escute, sou o primeiro a admitir que no tenho muita experincia com crianas...
O discurso foi interrompido quando ela arqueou as sobrancelhas. Rick suspirou, erguendo as mos em gesto exasperado.
- Tudo bem, no tenho experincia alguma com crianas, e isso sempre foi uma opo consciente de minha parte.
Ela encolheu os ombros.
- Esse parece ser o comportamento padro da maioria dos homens. O que vem provar meu ponto de vista sobre o assunto. - Sentindo-se subitamente exausta, Catrina caminhou para a cozinha com passos lentos e desligou o fogo do espaguete, sentando-se em seguida em uma das cadeiras da copa. - Felizmente voc fez essa opo antes de cometer um erro mais srio. Isso, pelo menos,  o que espero.
A expresso dele permaneceu desanimada.
- Nunca tive um filho ilegtimo, se  o que est insinuando.
- No estou insinuando nada. Sua vida pessoal no me diz respeito.
- Eu queria que a situao fosse outra...
- Bem, acontece que no .
- Isso j ficou claro.
- timo.
Cus, a febre dela estava piorando. As paredes pareciam girar a seu redor, e o peso da menina parecia ter duplicado nos ltimos minutos.
- Vamos discutir isso em outra ocasio, tudo bem? Heather est faminta, e eu realmente no...  Catrina ficou tonta, subitamente dominada pela nusea. - Oh-oh.
- Catrina?
Sem pensar um segundo, ela colocou a menina nos braos de um Rick perplexo e correu para o banheiro, caso contrrio acabaria vomitando ali mesmo.
A no ser pela ocasio horrorosa em que Gracie colocara Heather em seu colo, Rick jamais havia segurado uma criana nos braos. Nem uma vez sequer. Nunca.
A primeira coisa que o surpreendeu foi o peso diminuto da menina, depois foi a suavidade da pele infantil. Heather esticou os braos para toc-lo no rosto e o encarou com seus enormes olhos castanhos, obviamente sem ter conscincia da situao embaraosa do adulto grandalho.
Ela sorriu, como se o reconhecesse, e anunciou com firmeza:
- Quero biscoito!
- H... bem... - Rick olhava freneticamente para a porta fechada do banheiro. - Acho que sua me quer que voc jante primeiro.
Os olhos da menina estreitaram-se, a boca pequenina fez um muxoxo. No geral, a expresso dela era de curiosidade.
Rick no ficaria mais apavorado, mesmo que Heather tirasse uma granada de dentro da fralda descartvel.
- Oh, cus, voc no vai chorar, vai? Por favor, no faa isso.
A menina encolheu os ombros, contorcendo novamente a boca.
Agora ele estava  beira do pnico.
- Espere! Olhe, a comida est ali, comida de verdade... - Rick pegou a colher de madeira que vira Catrina usar e mexeu a panela cheia de um molho vermelho onde flutuavam alguns pedaos esparsos de macarro. - H... bem, talvez no seja comida verdadeira, mas  bem parecido.
Naquele momento, Heather estendeu os dois braos na direo da panela, chocando-o.
- Est mesmo com fome, no ? Acho que eu tambm ia chorar se um estranho aparecesse para atrapalhar meu jantar...
Ele se virou quando Catrina, muito plida, apareceu, vinda do banheiro.
- Tudo bem com voc?
Apesar de assentir com a cabea, ela encostou-se no batente da porta.
Rick soltou a colher, segurando a menina contra o peito como se ela fosse uma bola de futebol e caminhando apressado em direo a Catrina.
- Voc est ardendo em febre. Precisa de mdico urgente.
-  apenas uma gripe. Heather ficou assim na semana passada, e o mdico disse que eu no precisava me preocupar. Agora  minha vez. - Ela respirou com dificuldade, escondendo o rosto atrs das mos. - Obviamente esse no  o melhor momento para eu receber uma visita.
- Gostaria que voc no me considerasse uma visita.
Catrina o encarou com desdm.
- Bem, voc no se parece nem um pouco com a empregada.
- E se eu vestir um avental?
- O avental no combinaria com sua gravata de seda. - Ela voltou a apoiar-se somente nas prprias pernas. - No quero ser rude, mas queria que fosse embora, por favor.
- Voc est doente. Precisa de ajuda.
- Sua astuta observao foi anotada, e eu adoraria se voc fosse um mdico ou uma bab. Infelizmente,  apenas um arquiteto solteiro... o que no  de grande valia para mim no momento.
- D-me ao menos uma chance - Rick murmurou automaticamente. - E ento, se realmente quiser me ver fora de sua vida, prometo que vou obedecer.
Um brilho estranho iluminou os olhos dela, uma mistura de esperana e desespero. Um instante depois a expresso do delicado rosto feminino voltou a indicar apenas resignao.
- Certo, tudo bem - Catrina murmurou em um fio de voz. - Corte o espaguete em pedaos bem pequenos, e no d sobremesa a Heather at depois do jantar... Ah, outra coisa, ela prefere tomar banho com o sabonete cor-de-rosa.
- Banho? - Aquela palavra realmente chocou Rick. A simples idia de ter que esfregar e enxaguar a menina fez seu corao disparar. - Na verdade, estava pensando em cuidar de...
A palavra voc morreu nos lbios dele, que preferiu engoli-la antes de piorar a prpria situao.
- ...qualquer coisa que me mandar fazer - completou em um sussurro.
Depois de assentir com um gesto de cabea, Catrina correu apressada para o quarto e fechou a porta assim que entrou.

Suspirando, Catrina desabou na cama e constatou que nem se dera ao trabalho de arrumar os lenis naquela manh. Sentia-se muito cansada, com o corpo todo dolorido. Precisava se esticar um pouco. Na verdade, queria adormecer e acordar de novo s quando a filha j tivesse cinco anos.
Aquilo era o que desejava, mas no tinha a inteno de alimentar o pnico de Rick Blaine por tanto tempo assim... 
Tinha certeza de que o desejo de ajudar que ele manifestara era genuno. Rick era o tipo de pessoa que precisava desesperadamente ser til o tempo todo, espalhando felicidade por onde passava. Mas, infelizmente, ele tambm no compreendia que crianas no podiam ser pacificadas com presentes e agrados, e deixadas de lado logo em seguida. Uma criana representava um compromisso para toda uma vida, compromisso que homens como Rick Blaine no podiam compreender ou apreciar...

Aquele pequeno ser era a personificao dos piores pesadelos de Rick. Uma criancinha, uma miniatura de ser humano com quem precisava urgentemente aprender a se comunicar, ou ento teria srios problemas.
E Rick no tinha a menor idia de como fazer aquilo.
Bem, talvez tivesse pelo menos um palpite. Ele respirou fundo, murmurando em voz alta como que para se encorajar:
- Comida, essa  a resposta. Basta coloc-la em um prato e depois v-la desaparecer. Com certeza posso fazer isso...
Ainda embalando a menina desajeitadamente nos braos, ele comeou a explorar a cozinha, abrindo e fechando armrios at encontrar tudo o que era necessrio. Pegou o primeiro prato que viu, despejando nele uma quantidade excessiva de espaguete sem usar uma concha ou colher. O molho se espalhou pelo balco da copa e, maldizendo a prpria estupidez, Rick correu para pegar algumas toalhas de papel.
Quando finalmente conseguiu limpar toda aquela baguna, notou que Heather continuava a chorar, retorcendo o pequeno corpo selvagemente. Ele a acomodou na cadeira de beb, serviu o prato e ento se sentou em uma cadeira prxima, satisfeito consigo mesmo.
Demorou alguns instantes para perceber que a menina limitava-se a encar-lo, completamente imvel. Um suspiro escapou-lhe dos lbios.
- Ah... acho que voc precisa de uma colher... Aqui est. Colher. Pode comer. - Ele entregou o talher, demonstrando a utilidade do mesmo atravs de uma pantomima ridcula, cheia de gestos e caretas grotescas.
Heather olhava na direo dele como se estivesse sentindo piedade daquele adulto trapalho. Sua primeira atitude foi enfiar a mo dentro do prato, o que fez o contedo do mesmo transbordar mais uma vez.
Rick suspirou de novo. Aquilo no ia funcionar...
Temendo que Catrina aparecesse a qualquer momento para v-lo ser feito de tolo por aquela pequena criatura, ele apressou-se em pegar a colher novamente e tentou remediar a situao. Segurando o pulso frgil da menina, tentou ensin-la a manusear o talher.
- Primeiro voc segura assim, e ento. ..
- No! - Heather protestou com veemncia. E quando ela voltou a bater no prato com a mo espalmada, a gravata de seda italiana de Rick transformou-se de imediato em um trapo sujo e irreconhecvel. - Eu faz assim - ela murmurou orgulhosa, passando a mo suja nos prprios cabelos.
- Sim - ele replicou com um suspiro exasperado. - Claro que faz.
As minsculas sobrancelhas da menina arquearam-se.
- Primeiro, quero suco.
- Suco? - Rick olhou desesperadamente ao redor. - Que tipo de suco?
Heather piscou.
- Primeiro - ela insistiu. Seus lbios comearam a tremer de ansiedade.
- Certo, certo, eu j entendi... No chore. Pelo amor de Deus, no chore. - Levantando-se rapidamente, ele caminhou at a geladeira e pegou a primeira embalagem de suco de ma que viu. - Veja, suco... vou colocar no copo agora mesmo... S para voc, est vendo? - Depois de fechar a porta da geladeira, Rick voltou a se aproximar da mesa. - Aqui est seu suco.
A menina apanhou o copo e bebeu todo o lquido sem ao menos um olhar de agradecimento. De qualquer forma, Rick continuava apavorado, por isso acabou decidindo que era hora de recorrer a um expert.

- O que quer dizer com no pode? - Rick olhou para o telefone como se visualizasse o rosto sorridente da me no outro lado da linha. Ele engoliu em seco, tentando encontrar um argumento mais racional. - Talvez eu no tenha explicado a situao direito. Voc tem de fazer. A vida de uma criana depende disso.
A risada de Gracie foi franca e natural.
- Continua sendo exagerado quando no consegue o que quer.
- Voc no entende... - Ele deixou escapar um suspiro quando Heather entrou na sala de estar, segurando um travesseiro branco, repleto de manchas de molho em todos os lados. - No, no, voc no deve tocar em nada. Sua mame vai ficar muito infeliz com ns dois.
Ele escondeu o travesseiro arruinado embaixo de uma almofada do sof, pegou a sorridente garotinha com um dos braos, e retornou a seu discurso para a pessoa que parecia no estar se importando nem um pouco com a dramaticidade da situao.
- Escute, estou desesperado. Por favor, venha at aqui e d um banho nessa criana antes que ela acabe grudada no tapete para sempre.
Um som estranho chamou a ateno dele, seguido de outro que parecia o de uma coisa sendo aberta.
- O qu? Sinto muito, no ouvi muito bem o que disse. A pipoca est pronta.
- Pipoca? - Rick murmurou incrdulo, ajeitando a irrequieta menina no colo. - Pipoca? Estou esforando-me para manter a sanidade, e voc me diz que est fazendo pipoca?
-  a noite de Sean Connery, querido. Aluguei dois dos melhores fumes dele e estou pronta para uma magnfica sesso dupla... nem preciso dizer que esse homem  a fantasia sexual preferida de qualquer mulher madura.
- Me, por favor. No quero ouvir sobre suas fantasias.
- Isso  justo - ela replicou animada. - De qualquer forma, querido, foi muito gentil de sua parte se oferecer para ajudar Catrina. Tenho certeza de que ela apreciou muito isso.
- Apreciou? Esse lugar parece o refeitrio de um colgio depois de uma guerra de comida, e a menina est com os cabelos todos vermelhos. - Rick resmungou ao ouvir a risada da me. - Oua, alimentar  uma coisa. Dar banho  outra. Eu nunca lavei nem sequer um cachorro, pelo amor de Deus.
-  fcil. Coloque a criana na banheira, encha a esponja de sabo e esfregue vigorosamente. Depois disso lave os cabelos com xampu, seque-a e coloque uma fralda nova. S isso.
- Fralda? - Ele arregalou os olhos. - Santo Deus, nunca me ocorreu que ela precisaria...
- Ela ainda vai precisar de um pouco de proteo durante a noite. E, organizada como Catrina , tenho certeza de que vai encontrar tudo o que precisa. Basta abrir os olhos e procurar um pouco.
Rick olhou ao redor e viu as manchas de molho que j estavam secas no cho da cozinha, bem como as pequenas marcas de mos infantis espalhadas por todos os mveis.
- Por favor, estou implorando. Pago um milho de dlares se vier aqui para me tirar dessa encrenca.
- Sinto muito, querido. Um milho de dlares no  o bastante. Eu j lhe disse, hoje  a... 
- Noite de Sean Connery - ele disparou. - Eu sei.
Rick colocou o fone no gancho, massageando as tmporas com a mo livre e deixando escapar um gemido. Nadar no meio dos tubares seria mais fcil do que aquilo que o aguardava. Com certeza no iria saber se a gua estava muito quente ou fria, por isso a menina podia acabar queimada ou com pneumonia dupla. Presumindo claro, que conseguisse evitar que Heather se afogasse na banheira...
- Dodi?
- O qu? - Ele olhou para baixo, percebendo que a pobre criana estava espremida sob seu brao como uma bola de futebol. Em um gesto muito mais natural do que seria capaz uma hora antes, ergueu-a, segurando-a com as duas mos, e ajeitou-a junto ao ombro. - Dodi? Oh, voc est perguntando se estou com dor de cabea?
Sorrindo, a menina levou um dedo  boca. Em seguida, inclinou a pequena cabea para a frente e beijou-o no queixo.
- Pronto - ela murmurou. - Sarou.
Rick sentiu um aperto no peito.
- Sim - ouviu-se sussurrando. - Agora tudo est bem. Muito obrigado.
Heather riu, passando os braos ao redor do pescoo dele. Aquele gesto simples fez a pulsao de Rick se acelerar. 
Ele tinha notado antes que a maioria das crianas no era particularmente interessante para ningum, a no ser, claro, para os pais orgulhosos.
Aquela menina em particular, de qualquer forma, era especial. Sim, seu rosto estava insuportavelmente sujo, e os cabelos empastados com molho de espaguete... mas era uma criana doce, at mesmo adorvel.
Talvez porque se parecesse muito com a me.
Ele olhou fixamente para a garota.
- Claro que voc sabe que nunca dei banho uma criana em minha vida.
Os olhos de Heather estreitaram-se.
- Farei isso com uma condio. Voc tem de me prometer que no vai se afogar.
Heather piscou, sorrindo e meneando a cabea ao mesmo tempo.
- Muito bem. - Rick deixou a espinha reta, respirou fundo e s ento carregou sua preciosa carga at o banheiro.

Catrina acordou com a garganta seca, sua cabea parecia prestes a explodir a qualquer momento. Virando-se lentamente, notou que o relgio na cabeceira da cama indicava que j passava da meia-noite.
Meia-noite.
Estivera dormindo por quase cinco horas. Sentando-se imediatamente da cama, ela apoiou-se nas prprias pernas com dificuldade e saiu do quarto em pnico. Rick provavelmente devia estar furioso naquele momento. Isso se, claro, no houvesse ligado para um servio de babs e ido embora horas antes. 
Sem saber o que esperar, entrou no quarto de Heather, e seu temor cresceu instantaneamente. O bero estava vazio.
Mortificada, correu at a cozinha, atrada por uma luz acesa, e percebeu que o lugar parecia consideravelmente mais limpo do que o deixara. Todos os pratos e panelas tinham sido lavados e colocados no escorredor de louas que ficava na pia.
O cho tambm havia sido limpo e brilhava como novo. Havia algumas manchas midas na parede, como se algum houvesse passado um pano ali, e tambm algumas marcas no carpete do corredor, em uma trilha que levava diretamente  sala de estar.
Ela irrompeu na sala, notando que a televiso estava ligada. Na tela do aparelho, imagens de um antigo faroeste. Catrina piscou, esfregou os olhos com as costas da mo e s ento notou o que parecia ser o topo de uma cabea apoiada em um dos braos do sof.
Com o corao acelerado, caminhou em silncio at contornar o mvel, e quase no acreditou no que viu. L estava Rick Blaine, com manchas de molho na camisa e restos de espaguete nos cabelos, envolvendo Heather em seus braos. Ambos dormiam profundamente. 
Por um momento, Catrina ficou ali parada, incapaz de acreditar nos prprios olhos. Nunca na vida uma cena a tocara to profundamente. Tambm nunca vira um homem desempenhar com tanta naturalidade o papel de pai... 
Sempre soubera que aquele tipo de homem existia no mundo, homens capazes de lidar com crianas e am-las. Mas nunca tinha sido testemunha daquilo antes, nem uma vez sequer em toda vida. 
Aquele era o verdadeiro Rick Blaine. No o gnio dos negcios, o solteiro cobiado, o homem solitrio que escondia os sentimentos atrs de um comportamento gentil. Naquele momento de vulnerabilidade, Catrina entrevia a alma de um homem que tinha o poder de mudar sua vida para sempre. Era a pior coisa que podia ter acontecido. Porque naquele mesmo instante ela ficou profunda, completa e irrevogavelmente apaixonada. Sua vida nunca seria, nunca poderia ser a mesma. 


CAPTULO IX

- No, no,  muito alto!
- Relaxe,  perfeito, voc vai adorar.
- Est tentando me matar? Voc est, voc est tentando... ahhh! - Catrina gritou quando a gravidade a jogou contra o peito de Rick, e o tren deslizou em uma velocidade alucinante pelo monte de neve.
Depois de passar pelas rvores, fizeram uma curva fechada ao lado da colina enquanto Rick gritava animado. Ele parecia to feliz e satisfeito que provavelmente no havia pensado nem por um segundo que Catrina estava apavorada.
Um enorme monte de neve apareceu no caminho dos dois. Estavam indo exatamente naquela direo.
- Segure-se! - Rick gritou.
Claro que no havia nada em que Catrina pudesse se segurar, exceto na esperana frentica de que aquele monte branco no escondesse uma enorme pedra.
Bateram um instante depois. Ela caiu antes, girando o corpo e enterrando o rosto na neve. Depois de um momento, levantou-se lentamente, respirando fundo ao mesmo tempo em que via a expresso preocupada de Rick.
- Voc est bem?
- Acho que sim. - Ela encheu os pulmes de ar outra vez, arqueando as sobrancelhas. - Mas no graas a voc.
Ele riu, estendendo a mo para ajud-la a levantar-se.
- Onde est seu esprito de aventura?
- L no topo da colina, junto com meu estmago. - Ela limpou a neve da cala, fingindo uma expresso de censura, que suspeitou no ser muito convincente. - Eu lhe disse que era muito alto.
- Vamos l, isso  mais seguro que uma roda-gigante.
- Sempre detestei roda-gigante.
- Ningum  perfeito. - Rindo, ele inclinou-se para pegar o tren, depois disso levantou-se e abraou-a pela cintura. - Mas no se preocupe, voc tem outros atrativos.
-  mesmo... podia me falar mais sobre isso... - Ela ergueu o rosto esperando pelo beijo dele, e no ficou desapontada. Rick beijou-a de maneira suave, mas com uma paixo capaz de fazer todo o gelo ao redor derreter.
- Hum... - Ele interrompeu o beijo com uma relutncia bvia, seus lbios curvaram-se em um sorriso. - Acho que  melhor encontrarmos Gracie e Heather antes que elas chamem o servio de resgate.
- Eu concordo.
Catrina queria tanto sair daquele lugar lindo e isolado quanto Rick. Na verdade, sentia-se tentada a jog-lo na neve e pular sobre ele, debaixo de um dos vrios cedros gigantescos que havia ao redor. Afinal de contas, nunca haviam feito amor na neve. De fato, ela e Rick nunca haviam feito amor, mas aquilo se devia mais ao comportamento contido dele do que ao desejo dela. Nunca tinham discutido claramente sobre sexo, mas era claro que ambos estavam cautelosos quanto a levar o relacionamento quele nvel de intimidade.
No que o desejo dele no fosse bvio. Sem dvida, Rick sentia-se fisicamente atrado, embora nunca houvesse colocado Catrina em uma posio desconfortvel quanto quele assunto. Ele parecia contente apenas em passar algum tempo com ela, o que no deixava de aturdi-la.
Trs semanas j haviam se passado desde que Catrina encontrara Rick dormindo no sof com a menina nos braos. Tinham sido as trs semanas mais gloriosas e apaixonantes que jamais experimentara. Passavam todas as noites juntos como uma famlia, rindo durante o jantar ou pedindo comida pelo telefone, quando ento assistiam a algum filme pela televiso.
Os finais de semana haviam se transformado em pequenas aventuras, com passeios variados para distrair Heather nas mais variadas situaes. Rick se tornara parte importante da vida de Catrina, e da de Heather tambm.
Era mais do que bvio que a menina o adorava.
Catrina gostava daquilo, mas uma voz interior no deixava de adverti-la de que toda aquela felicidade era passageira. Nada durava para sempre, nem mesmo a vida.
Mesmo assim, ela no podia negar que Rick lhe trouxera felicidade, mesmo que seu corao insistisse em lhe dizer para no ficar entusiasmada demais com aquilo.
Ele colocou o cabo amarrado ao tren sobre o ombro, abraando-a em um gesto possessivo.
- Vamos correr at o topo?
- Corra se quiser, mocinho, todos os msculos de meu corpo esto doloridos.
- Ento a coisa mais galante a fazer  tom-la nos braos e carreg-la at a civilizao.
- Certo. - Ela estacou imediatamente, estendendo os braos. - Pegue-me, sou toda sua.
A expresso atnita de Rick era hilria.
- Realmente quer que eu a carregue? Em um barranco que tem a altura de seis andares?
- Mas voc disse que essa colina  do mesmo tamanho de uma roda-gigante, sr. Galanteador. - Catrina sorriu maliciosamente. - Agora percebo que era apenas uma bravata. Acho que o peguei dessa vez.
- Ser que no acredita na palavra de um homem virtuoso, ou pensa que ele no  capaz de proteger sua dama dos perigos desse mundo cruel? - Ele fingiu estar indignado. - Nada disso. No h bravata alguma.
Ainda segurando o cabo que puxava o tren, Rick inclinou-se para a frente como se fosse beij-la, mas em vez disso ergueu-a do cho usando o brao livre e segurou-a no colo como se ela no pesasse mais do que uma pluma.
- Atacar! - ele gritou, comeando a correr colina acima e ignorando os protestos dela.
Quando chegaram ao plat ao lado da cabana viram Gracie e Heather fazendo um boneco de neve. Catrina tinha rido tanto que sentia o estmago dolorido, e Rick arfava como se estivesse prestes a sofrer um colapso.
Sem interromper o que fazia, Gracie ergueu a cabea e olhou para os dois.
- Santo Deus, acho que vou ter de chamar uma ambulncia.
Rindo, Rick inclinou-se o bastante para que o p de Catrina tocasse o solo.
- Ela... est... bem... - ele disse, resfolegando. - S est... sentindo... frio nos ps.
- Bem, com certeza voc pode cuidar disso... - Gracie murmurou com um sorriso. - Sei que Catrina est bem, estava falando de voc, seu tolo. Sabia que seu rosto est cinzento?
- Provavelmente por causa do frio. - Respirando fundo, ele empertigou o corpo. - Estava sendo galante para minha dama, s isso.
- Estava comportando-se como um tolo - Catrina corrigiu. - Um tolo adorvel, devo dizer.
- No  minha culpa se voc  mais pesada do que parece.
- Calado!
- Ser que  impresso ou percebi que a moa  um tanto sensvel quanto ao peso?
- Mencione isso de novo e vai morrer lentamente. Ser que fui clara o bastante?
A advertncia foi seguida de um sorriso, o qual foi retribudo por Rick. Gracie, tambm sorridente, observou a cena calada.
- Me, me! - Heather levantou-se imediatamente, sem conseguir disfarar a excitao. - Eu fiz um boneco de neve!
-  mesmo? - Catrina olhou para a criao da filha, que com alguma imaginao podia lembrar o formato de um boneco. - Mas que bonito!
Rick arqueou as sobrancelhas, sussurrando algo em seu ouvido.
- Ele parece um pouco... h... pornogrfico, no acha? Viu aquela protuberncia? Talvez seja melhor voc conversar com sua filha.
- Comporte-se. Pelo amor de Deus, ela tem apenas dois anos.
- Mas minha me no.
- Voc  terrvel!
Os dois comearam a rir e, em um gesto automtico, Rick ergueu a menina do cho, ajeitando-a no colo.
- Ento o que achou de toda essa coisa branca, minha pequena?
Heather arregalou os olhos.
- Eu... eu fiz um boneco de neve!
- E ele  muito bonito. - Os lbios de Rick curvaram-se em um sorriso. - Quer brincar de escorregar agora?
A menina concordou excitada, a despeito do protesto imediato de Catrina.
- No est pensando em lev-la junto naquela brincadeira suicida, est?
- Vamos nos divertir bastante... aposto que a filha  mais corajosa que a me.
Catrina encarou-o com uma expresso de fria fingida ao mesmo tempo em que Heather acenava, despedindo-se.
Os dois agiam de maneira to natural, ela pensou. Era exatamente daquela forma que tinha imaginado uma relao entre pai e filho. Quando era uma criana tambm, Catrina vivia criando fantasias sobre seu prprio pai ausente, histrias criativas que ao menos lhe ofereciam algum conforto. Mas nunca conseguira superar por completo a mgoa que o abandono do pai lhe causara. Agora se perguntava se o mesmo havia acontecido com Rick.
- Ainda acredita que o amor  um mito?
A pergunta a surpreendeu. Em parte porque ainda no tinha percebido que Gracie estava parada a seu lado e, em parte, porque a mulher parecia ter lido seus pensamentos mais secretos com muita facilidade.
Demorou alguns momentos para lembrar-se de que ela mesma havia feito aquela afirmao sobre o amor semanas antes, em uma conversa na loja de Gracie.
- O amor  real - Catrina disse em voz baixa. - O mito  acreditar erroneamente que ele possa durar para sempre.
Gracie ficou pensativa, seu olhar fixou-se no filho, que, naquele momento, escorregava colina abaixo no tren com a risonha menina no colo. 
- Para sempre  muito tempo.
- Sim. - Catrina cruzou os braos de maneira to violenta que chegou a sentir dor. - Eu me contentaria com algumas dcadas de felicidade.
- Isso certamente seria timo. - Enfiando as mos nos bolsos da jaqueta de couro, Gracie umedeceu os lbios. - Sempre pensei no amor como se ele fosse um fruto. Devemos esperar o tempo certo para que ele amadurea antes que possamos experiment-lo. A ento desfrutamos de uma perfeio deliciosa.
Catrina encarou-a, arqueando as sobrancelhas.
- Mas as frutas tambm so perecveis e devem ser aproveitadas no momento certo.
- Ah, mas as coisas mais frgeis so as mais preciosas, no ?
- Nem sempre.
- Oh... - Gracie encolheu os ombros. - Acho que foi uma analogia ruim. Podamos tentar uma comparao com legumes, o que acha de tomates?
- Acho que eles tm pouco a ver com a complexidade dos relacionamentos humanos.
- O que temos aqui, um acesso insuportvel de realismo? Certo, ento vamos direto ao ponto. Ambas sabemos que est apaixonada por meu filho. O que pretende fazer a respeito disso?
Pega de surpresa pela objetividade da mulher, Catrina riu nervosamente, sentindo a garganta ressecar-se. Ela evitou o olhar penetrante de Gracie, encolhendo levemente os ombros.
- Eu no sei.
- Pelo menos voc  honesta.
- Tento ser. - Catrina ajeitou os cabelos em um gesto casual. - E como voc acabou de observar, prefiro ser realista. No sou a primeira a se encantar por seu filho, e duvido de que serei a ltima.
- Mas que atitude  essa? Se voc o quer, lute por ele.
- Por que deveria lutar, e qual seria o prmio? Mais algumas semanas ou meses ao lado de um homem que quer ser livre, e que vai acabar partindo inevitavelmente? - Sua voz falhou, traindo-lhe a emoo. - Estamos divertindo-nos na companhia um do outro no momento, e isso me basta.
-  mesmo? - Gracie estudou-a intensamente. - Bem, eu diria que vocs dois foram feitos no mesmo molde. Nunca pensei que encontraria uma mulher to determinada a evitar compromissos quanto meu filho, mas a vida est cheia de surpresas.
- No estou determinada a evitar compromissos.
- E como chamaria isso ento?
- Um acesso de realismo, como voc j disse. - O assunto estava se tornando mais e mais desconfortvel, um lembrete de que aquela felicidade era frgil e passageira. - Escute, Gracie, no tenho medo de compromisso. J fiz isso antes, lembra-se? No passado disse a um homem que ficaria com ele at que a morte nos separasse, e fui abandonada onze meses depois. No  minha culpa se j no sou to crdula no amor quanto o resto do mundo.
- O resto do mundo? - O sorriso da senhora era gentil, embora ligeiramente triste. - Isso  um monte de gente.
Horrorizada, Catrina percebeu que j no parecia to convicta quanto antes.
- No seio que fazer, Gracie. Prometi a mim mesma que nunca mais deixaria o corao ditar minhas atitudes, e mesmo assim aqui estou eu, deixando-me levar por fantasias tolas. Por que estou fazendo isso a mim mesma? O que h de errado comigo?
Gracie abraou-a carinhosamente. 
- Nada est errado com voc, querida.  uma jovem perfeitamente normal que se apaixonou por um homem perfeitamente normal. Isso acontece todos os dias.
Catrina sentiu-se enfurecida quando notou que j no conseguia conter as lgrimas.
- No quero perd-lo, Gracie, e mesmo assim sei que mais cedo ou mais tarde ele vai partir. Rick  assim, um homem que precisa sempre de novos rostos, novas amizades, novas experincias em sua vida. Agora mesmo, Heather e eu representamos uma novidade, mas certamente ele vai se cansar de ns, e, quando isso acontecer, no estou certa se vou saber lidar com a sensao de perda.
- Voc honestamente acredita nisso? Se  assim, fico surpresa que tenha se apaixonado por um homem de quem tem um conceito to baixo.
Catrina escolheu as palavras cuidadosamente antes de responder.
- Rick no  um mau sujeito, Gracie, e voc entre todas as pessoas deve saber disso. De qualquer forma, ele  homem que teme perder a liberdade mais do que tudo.
Um suspiro escapou dos lbios da mulher mais velha.
- No  a perda da liberdade que meu filho teme.  a perda daquela que ele escolher para amar. - Ela lanou um olhar de relance. - Tenho certeza de que pode entender esse medo, j que sente a mesma coisa.
A afirmao foi perturbadora, para dizer o mnimo. Catrina retesou os ombros, como se o gesto pudesse amenizar seu tormento ntimo.
-  natural ter medo de perder as pessoas que amamos, Gracie.
- Claro que . - Percebendo o distanciamento de Catrina, Gracie tirou o brao do ombro dela. - Mas negar a si mesma a alegria do amor como medida de proteo no  a soluo.
Um arrepio percorreu a espinha de Catrina.
- E qual  a soluo?
- S Deus sabe, minha filha. Mas Ele lhe deu inteligncia e um corao bondoso por algum motivo. No ignore estas ddivas. Use-as segundo as intenes Dele.
- Em outras palavras, no devo me preocupar e devo simplesmente deixar a vida seguir seu curso natural?
Gracie encolheu os ombros.
- Isso seria to ruim?
Catrina no respondeu, demorando alguns instantes para perceber que a amiga havia partido. Mesmo assim, a ltima pergunta de Gracie continuou a atorment-la.
Ser que era realmente to ruim viver o momento, aproveitar tudo como se no houvesse amanh?
Durante toda a vida ela sempre se preocupara com o futuro, tomando qualquer deciso com cautela e tentando evitar problemas a todo custo.
Isso lhe parecia um comportamento maduro e previdente, apesar de saber que o mundo sempre era imprevisvel. Se no conseguisse controlar a ansiedade, ao menos poderia viver de maneira mais tranqila. Sempre lhe parecera uma alternativa razovel diante da agonia de ter o corao partido. Mas talvez fosse simplesmente uma atitude covarde.
A algumas dezenas de metros, Rick subia pela trilha com Heather nos braos. Os dois estavam molhados, tremendo, rindo como se no tivessem qualquer preocupao. Apesar da distncia, Catrina podia ver que os braos da menina seguravam o pescoo de Rick com fora, em urna atitude inconscientemente possessiva. Aquele rosto infantil e sorridente expressava a maior felicidade de todo o mundo.
O corao de Catrina apertou-se. A felicidade no rosto da filha era uma maravilha, uma bno. Mas tambm, talvez, uma maldio.
A dicotomia do pensamento surpreendeu-a. Percebeu que Gracie estava certa. Tinha uma tendncia incontrolvel de enxergar um sofrimento potencial mesmo nos momentos mais felizes, o que a impedia de desfrutar tudo o que a vida tinha de melhor para lhe oferecer. Mas estava determinada a no arruinar a felicidade da filha de maneira alguma. 

- Voc  mesmo uma incansvel. - Exausto, Rick desabou de costas na neve enquanto a persistente menina puxava-o pela mo. 
- Mais - ela pediu. - Quero de novo. 
- Ser que no tem piedade? Eu sou apenas um velho.
Heather arqueou as sobrancelhas, sorrindo por um momento antes de voltar a se atirar sobre o peito de Rick.
- Quero mais! Quero mais! 
Ele teria respondido se no estivesse to ocupado tentando respirar, algo que seria muito mais fcil se a pequenina parasse de pular em cima de seus pulmes.
- Rick? - Uma sombra cobriu os dois. - Rick Blaine?
Estreitando o olhar, Rick tentou focalizar o rosto vagamente familiar do homem. Como no conseguia falar, simplesmente assentiu com a cabea e respirou fundo.
Erguendo-se sobre os cotovelos, ele finalmente reconheceu as feies de Jason Montgomery, que havia conhecido alguns anos antes quando ambos competiam por um mesmo projeto. Rick tinha conseguido o trabalho, mas a disputa tinha sido dificlima.
Jason estava rindo.
- Minha nossa, Blaine, pensei que estava atualizado sobre os boatos mais recentes, mas nunca soube que voc tinha desistido da vida de solteiro. - Ele estendeu a mo, ajudando Rick a levantar-se. - Uma criana adorvel, Rick. Voc deve estar orgulhoso.
- Oh, ela no  minha. - A nfase da resposta surpreendeu o prprio Rick. No sabia por que, mas a idia de que algum o considerasse pai o perturbava muito.
Ele olhou para Heather, que tinha colocado um dedo na boca e examinava o estranho recm-chegado com curiosidade. Por algum motivo sentiu o corao apertado.
-  filha de uma amiga minha, s isso.
- Uma amiga. - Os olhos de Jason brilharam, mas ele limitou-se a encolher os ombros. - Eu j devia saber que o solteiro mais convicto do mundo no desistiria to facilmente. Desculpe-me por imaginar coisas.
Heather agarrou a perna de Rick com fora, oferecendo a Jason um sorriso infantil devastador.
O homem retribuiu, sorrindo tambm.
- Bem, ol. Qual  seu nome?
A menina riu, escondendo o rosto imediatamente. 
- Heather - uma voz fria respondeu, vinda de algum lugar. - O nome dela  Heather. 
Rick mal teve tempo de se virar antes que Catrina pegasse a menina nos braos. Ela lanou um olhar a ele antes de concentrar sua ateno em Jason. 
- Sou Catrina Jordan, "amiga" de Rick.
A nfase dada quela palavra e a frieza com que foi pronunciada fizeram Rick gelar. Ele mal conseguiu prestar ateno quando Jason acabou de se apresentar.
-  um prazer conhec-lo, sr. Montgomery. - Catrina segurava a filha no colo, evitando o olhar de Rick. - Espero que nos desculpe. Minha filha j teve toda a diverso que podia agentar em um s dia. Ela precisa descansar agora.
-  claro - Jason replicou polidamente, vendo Catrina afastar-se um segundo depois. Sua expresso era intrigada. - No sou nenhum expert em mulheres, pois s estou casado h nove anos. Mas se tivesse que apostar, diria que essa jovem no est muito contente com voc no momento.
- Temo que esteja certo, meu amigo. - Rick murmurou. No sabia ao certo o que havia feito, mas com toda certeza fora algo muito errado.

A volta para casa foi estranha. As conversas eram cuidadosas, polidas demais, e a tenso no ar era palpvel. Levaram Gracie primeiro, depois Rick dirigiu at o apartamento de Catrina, que ficava a algumas quadras de distncia. Ele ajudou a carregar a menina adormecida para cima e sentou-se no sof enquanto Catrina levava a filha para o quarto para coloc-la no bero. Alguns minutos depois, ela voltou para a sala de estar com passos lentos, aparentemente sem pressa alguma. 
- Quer tomar um caf?
- No, obrigado.
Um pesado silncio os envolveu.
- Prefere algo mais forte? Tenho cerveja na geladeira.
- No, estou bem. Verdade. - Ele suspirou, arrumando os cabelos com os dedos. - Para ser franco, no me sinto to bem assim. Fiz algo que a deixou irritada, no ? 
Catrina engoliu em seco, desviando o olhar para uma rachadura que havia no canto da parede.
- No estou irritada com voc, Rick. Estou irritada comigo.
- Eu no entendo.
Aquilo no a surpreendia, j que ela mesma mal podia entender.
- Quando voc pensa em seu futuro, daqui a um ano ou dois, o que exatamente espera conquistar para sua vida?
Ele a encarou como se estivesse diante de uma esfinge.
- Realmente no sei, nunca pensei nisso.
Era exatamente a resposta que Catrina esperava ouvir.
- Sabe, essa  a principal diferena entre ns, voc nunca pensa no futuro, e eu no consigo deixar de fazer isso.
O rosto dele parecia mais plido do que alguns momentos antes. 
- Ningum sabe o que o futuro lhe reserva.  perda de tempo tentar decifrar o impossvel.
- No  o que pensa sobre os oramentos fiscais. Sei que voc exige de Frank projees de gastos detalhadas para os prximos cinco anos.
- Mas no estamos falando de negcios.
- Bem, o mundo dos negcios  apenas um outro aspecto do cotidiano. Voc consegue planejar com antecedncia quando se trata de dinheiro, mas sua vida pessoal  baseada na teoria do "viva o momento".
- E da, o que h de errado nisso?
- Nada, realmente.  que esse tipo de comportamento no funciona comigo. - Catrina detestou constatar que seus olhos estavam midos. - Quando eu tinha trs anos, minha me e meu pai tiveram uma briga terrvel. Minha bab teve uma emergncia familiar, e minha me precisava trabalhar, por isso pediu que meu pai cuidasse de mim. Era a noite em que jogava boliche, e ele no ficou nem um pouco satisfeito. - As sobrancelhas dela arquearam-se, indicando que se esforava para lembrar dos detalhes. No olhava para Rick, embora tivesse certeza de estar sendo ouvida atentamente. - Os detalhes me fogem - ela sussurrou -, mas me lembro de que ele me deixou sentada a noite inteira em um banco na pista de boliche, completamente sozinha. Alguns dos amigos dele tentaram ser gentis. Perguntavam se eu tinha fome ou sede. Meu pai lhes disse para cuidarem da prpria vida, e que eu era capaz de me virar sozinha. - Ela encolheu os ombros. - Dois dias depois, ele partiu. Nunca mais o vi.
Seguiu-se uma pausa tensa. Rick enfiou as mos nos bolsos, encarando-a com hesitao.
-  uma histria muito triste - disse cautelosamente. - Algo assim jamais deveria acontecer a uma criana, nenhuma criana.
- Est certo, no deveria. E farei tudo que estiver a meu alcance para ter certeza de que no vai acontecer com minha filha, mesmo que isso signifique priv-la da felicidade agora para impedir que seja magoada no futuro.
- No sei sobre o que est falando - ele replicou, embora seu olhar indicasse que tinha entendido muito bem. - Eu nunca seria grosseiro com Heather ou a magoaria de forma deliberada. Eu... realmente gosto muito dela.
- Sei que gosta. Mas no pode dar a minha filha aquilo de que ela precisa. - Catrina respirou fundo, tomando coragem para encar-lo. - No quero que Heather se apegue a voc, Rick. Mais cedo ou mais tarde voc vai abandon-la, e essa perda ser devastadora.
O rosto de Rick agora estava branco como o papel, como se ele estivesse prestes a desmaiar.
- O que exatamente est me pedindo para fazer? Casar com voc?
A expresso dela era glida.
- Nunca pediria isso a voc ou a qualquer outro homem.
- Mas  isso o que quer?
- Casamento no  a resposta. J pensei assim no passado, mas aprendi rapidamente que um pedao de papel no significa um verdadeiro comprometimento entre duas pessoas. Um comprometimento por toda a vida.
- Ningum pode se comprometer por toda uma vida, Catrina, a no ser que tenha uma bola de cristal ou uma linha direta com Deus. Isso  uma tolice. - A voz de Rick era rouca, o tom um pouco desesperado. - Voc deseja o impossvel, uma garantia de que tudo sempre permanecer como est agora, que as pessoas no vo crescer e amadurecer, que as circunstncias no vo mudar. Nenhuma pessoa tem esse tipo de controle sobre a prpria vida, Catrina. Gostamos de pensar que temos, mas  mentira.
- Sei disso - ela sussurrou. - Santo Deus, sei disso muito bem.
- Voc no pode proteger sua filha de tudo.
- Posso tentar.
- Mesmo que isso signifique priv-la da felicidade s porque isso no acontecer para sempre? - Ele deu um passo adiante, depois voltou para o lugar, como se estivesse sendo puxado em duas direes ao mesmo tempo. - No posso entender isso.
- Sim, voc pode, Rick. Infelizmente, entendeu tudo muito bem.  por isso que  to avesso a compromissos... Voc j experimentou a mgoa causada por promessas quebradas e famlias divididas. 
Quando ele encolheu os ombros, Catrina percebeu que o tinha atingido e suavizou a voz.
- Eu e voc no somos to diferentes. Ambos evitamos coisas que nos causam dor, situaes que no podemos controlar. A diferena principal  que voc pode tomar suas decises baseado apenas em como elas o afetam pessoalmente. Eu tenho que pensar em minha filha, antes de tom-las... 
A expresso de Rick era aturdida e desanimada ao mesmo tempo. 
- Acho que no tenho outra escolha seno aceitar isso. - Depois de pegar a jaqueta no sof, ele observou-a por um momento, ento girou sobre os calcanhares e caminhou para a porta.
Ela o deteve quando sua mo j estava na maaneta.
- Rick? 
Estacando, ele olhou por sobre o ombro.
- Eu o amo - ela sussurrou. .
Uma mgoa lancinante trespassou o corao de Rick como um punhal. 
- Eu sei. - E, depois de dizer aquilo, ele foi embora.


CAPTULO X

- O termo profecia auto-executvel significa alguma coisa para voc?
- O qu? - Catrina piscou, despertando do devaneio no qual sua mente submergira havia vrios minutos.
Levou um momento para que ela se recompusesse. Pouco a pouco, comeou a reconhecer o aroma familiar de lils e jasmim das velas aromticas de Gracie, e o tema musical que saa dos alto-falantes do aparelho de televiso indicava que o vdeo a que tinham assistido terminara. Catrina no se lembrava nem mesmo do ttulo do filme, s sabia que havia sido algo muito violento, afinal de contas, aquela era a noite de Mel Gibson.
Do outro lado do sof, Gracie segurava a menina adormecida nos braos.
- Deixe-me definir para voc. Uma profecia auto-executvel  algo que uma pessoa faz deliberadamente para satisfazer um desejo narcisista de poder dizer "eu lhe disse".
As plpebras de Catrina ergueram-se para revelar um olhar alerta. Ela colocou de lado a tigela quase vazia de pipocas e encarou a amiga.
- Voc prometeu que no iramos discutir minha vida particular.
- Eu menti.
Catrina levantou-se, cruzou a sala e retirou a fita do aparelho de videocassete.
- No tive outra alternativa, Gracie. Heather estava ficando muito ligada a Rick.
- Ento voc naturalmente tinha de arriscar. - A mulher olhou para baixo para se assegurar de que a menina ainda dormia, e ento continuou falando em voz baixa para no acorda-la. - Sabe que a adoro, querida, mas evitar que sua filha desenvolva apego por outras pessoas apenas para proteg-la de possveis desapontamentos vai acabar impedindo que ela desenvolva a habilidade de distinguir entre as influncias positivas e negativas em sua vida. No pode mant-la em uma bolha, deixando-a sozinha pelo resto da vida.
- Isso no  justo, Gracie.
- A vida no  justa. - A amiga suspirou e colocou cuidadosamente a criana adormecida no sof. Ento levantou-se, cruzando a sala para abraar Catrina. - Deve ser honesta consigo mesma, querida. Sei que foi muito magoada quando era criana, e no duvido de que faria qualquer coisa, at mesmo caminhar sobre o fogo, para evitar que Heather passasse pelo mesmo sofrimento. Eu sei que voc acredita sinceramente que a protege, mas a verdade  que est protegendo a si mesma.
Uma negativa morreu antes de sair dos lbios de Catrina, porque ela percebeu que a amiga falava a verdade. Imediatamente, sentiu a garganta ficar extremamente ressecada.
- Sempre acreditei que papai nos deixou por minha causa, porque eu era muito irritante, exigia muita ateno, porque eu comia demais, porque estragava minhas roupas depressa ou tomava muito tempo dele. Cada vez que ouvia minha me chorando atrs da porta de seu quarto, sentia que sofria por minha culpa.
Gracie assentiu, segurando-a pelos ombros. 
- Eu entendo isso. De certa forma, Rick teve de lidar exatamente com a mesma situao.  por isso que vocs dois mantm muralhas ao redor de seus coraes, apesar de se sentirem muito atrados mutuamente. Se um de vocs se desarmasse, dando uma chance para...
A voz dela falhou. Baixando os braos, ela se virou, secando as lgrimas com as costas das mos. Parecia muito frgil, Catrina percebeu, emocionalmente abalada.
- Sinto muito - Gracie finalmente disse. - Isso soou como se eu estivesse defendendo meu filho e suponho que seja verdade. Voc est certa sobre ele, e a verdade com freqncia  dolorosa. - Ela ergueu a cabea, olhando por sobre o ombro. - Rick  um homem maravilhoso, talvez o melhor que j conheci. Eu mentiria se dissesse que no sou orgulhosa disso. Mas ele no v nele mesmo o que os outros vem. Rick se olha no espelho, e tudo o que consegue ver  o reflexo do pai, encarando-o de volta. Ele no acredita em amor nem em comprometimento. Temo que isso seja minha culpa. Os erros que cometi na vida surtiram um efeito profundo nele.
Catrina estava aturdida.
- Voc no pode se responsabilizar pelas escolhas de outra pessoa.
- Por que no? Voc mesma acabou de falar que se sentia do mesmo modo.
A armadilha fora to bem planejada que Catrina j estava completamente envolvida antes que pudesse perceber o que tinha acontecido.
- No  a mesma coisa, Gracie.
- E qual  a diferena?
- A diferena  que...  Catrina quase mordeu a prpria lngua. - Ora...  diferente, s isso - ela concluiu desanimada.
- Ah, isso explica tudo. - Gracie encolheu os ombros. - De qualquer forma, o amor no precisa se atar a um compromisso para justificar sua existncia. Ele ilumina cada momento de felicidade sem oferecer nenhuma garantia. O amor  sua prpria recompensa. Neg-lo porque ele pode no durar para sempre  como negar a si mesma a vida, porque a nica coisa inevitvel que conhecemos  a morte.
Catrina estava arrepiada dos ps  cabea. Cada palavra pronunciada por Gracie representava um golpe mortal no raciocnio lgico que concebera metodicamente para se defender do indefensvel. 
- Tenho tanto medo - ela sussurrou.
O olhar fixo de Gracie suavizou-se instantaneamente. Ela abriu os braos, oferecendo um abrao maternal para Catrina.
- Shh, eu sei, querida. Colocar nosso corao nas mos de outra pessoa  realmente assustador. No existe garantia de que nossos sentimentos sero tratados com carinho.
Os coraes eram muito frgeis, sempre vulnerveis e indefesos. Eventualmente a autoproteo transformava-se em uma forma de consumir-se a si mesmo, e as pessoas feridas transformavam-se em seus prprios algozes.
-  tarde demais - Catrina sussurrou.
- Bobagem, nunca  tarde demais para conversarmos abertamente com as pessoas com quem nos importamos. - Gracie suspirou, dando um passo para trs ao mesmo tempo em que umedecia os lbios. - Rick est passando alguns dias em Vancouver, mas quando ele voltar certamente vocs dois acabaro se encontrando, nos corredores ou em uma reunio qualquer. Isso vai ser inevitvel. E j que ambos tiveram a chance de colocar a mente em ordem, considerar a situao mais racionalmente...
-  tarde demais para isso. - Lgrimas escorreram pelo rosto de Catrina. - Pedi demisso ontem. Heather e eu nos mudaremos para Bakersfield no final do ms.
Gracie ergueu a cabea e arregalou os olhos como se houvesse acabado de tomar uma bofetada.
- No pode estar falando srio. Mas por que Bakersfield?
- Ofereceram-me um bom emprego, e o custo de vida  menor naquela rea, o que torna mais fcil a vida de uma me solteira. - Ela evitava o olhar de Gracie. - Sinto muito. Sei que vai sentir saudade de Heather, e ela tambm sentir sua falta. Mas eu no posso ficar. Toda vez que o vejo, toda vez que sinto o perfume dele no corredor do escritrio  como se eu morresse por dentro.
Os olhos de Gracie estavam vermelhos. Ela virou a cabea por um momento e olhou pela janela, seus ombros estavam rgidos e a espinha extremamente reta.
- Desejo o melhor para voc, querida. Espero que sempre mantenha contato.
O tom de voz de Gracie era conformado, como se ela aceitasse algo inevitvel, e aquilo assustou Catrina. Realmente era tarde demais. E as duas mulheres sabiam.

Sorvendo um gole do segundo usque duplo da noite, Rick tentou ignorar a conversa telefnica de Frank, o que era muito difcil, j que o homem tinha o costume de falar muito alto.
- Sim, sim, estou livre nesse fim de semana. Diga a Sandy e Bart que ficaremos felizes em cuidar das crianas... O qu? Oh... isso no ser um problema. - Ele riu, mudando o celular de orelha. Lembre-o de que criamos quatro filhos sozinhos. Eles podem viajar sem deixar nenhum manual de instrues.
Rick encostou-se na cadeira, sorvendo mais um gole da bebida. Se apenas a bebida conseguisse faz-lo pensar em outra coisa, seria um homem feliz. Entretanto, a imagem de uma certa loira insistia em dominar-lhe os pensamentos a cada minuto do dia, transformando sua vida em um desafio.
Devia haver uma lei que impedisse as mulheres de dominarem a mente de um homem. E seu corao tambm, obviamente.
Devia haver uma lei.
Ele terminou o drinque e segurou o copo vazio bem alto para chamar a ateno do garom.
- No tenho certeza, querida - Frank ia dizendo. - Rick acabou estendendo nossa visita. Ele marcou mais duas reunies amanh, e uma conferncia com o pessoal da prefeitura no dia seguinte..
Enfiando a mo no bolso, Rick entregou uma gorjeta para o rapaz que acabara de servi-lo.
- Traga-me a garrafa e um balde de gelo. - ele murmurou. - Essa vai ser uma noite longa.
O sorridente garom afastou-se.
Frank finalmente desligou o celular, guardando-o no bolso logo em seguida.
- Lucile disse que eu devia voltar para Los Angeles no prximo avio, e me sugeriu que, se voc protestasse, eu devia tapar sua boca e amarr-lo na asa do avio.
- Que engraado. - Rick sorveu outro gole de usque. - Espero que seu prximo chefe tenha senso de humor.
- Minha esposa sente minha falta.  to difcil acreditar nisso?
- Difcil no,  quase impossvel. Nunca tinha imaginado como  irritante ser acordado s seis da manh por algum que no gosta de tomar caf sozinho.
- Ora, ns tnhamos uma reunio s oito em ponto, e se voc no houvesse insistido em fechar o bar na noite passada, garanto que teria mais a dizer a nossos clientes em potencial do que "algum tem uma aspirina?" ou "acho que no estou me sentindo bem".
Rick cerrou os dentes. Tudo bem, no tinha sido um de seus melhores dias. Qualquer homem podia ter um momento de inconseqncia de vez em quando.
- Pelo menos meu celular no me interrompeu trs vezes s porque minha famlia no sabia decidir o que comprar para o jantar...
Frank encolheu os ombros, sorrindo.
- Meu filho caula foi escolhido para ser o orador da turma. Isso certamente merece um telefonema. E um de meus netos quebrou a perna, brincando de Batman no jardim-de-infncia. Um av deve ser informado dessas coisas. Oh, e a ltima ligao foi de minha mulher, que apenas estava com saudade e queria ouvir minha voz.
- Claro, afinal de contas ela j no falava com voc a quase duas horas...
O outro homem encolheu os ombros, fazendo um gesto para que o garom lhe trouxesse outro copo de vinho branco.
- A inveja  um sentimento muito feio.
- Acha que eu o invejo?
- Acho que voc inveja o que eu tenho, Rick. Notei seu olhar quando falo de minha famlia, ou quando eles me telefonam. No  uma expresso ressentida ou zangada,  o olhar de um homem que gostaria que seu prprio telefone tocasse.
- Meu telefone toca dia e noite sem parar.
- Ah, mas no  isso que importa... O que importa  quem est do outro lado da linha. - Glasgow sorriu com franqueza. - A famlia  aquilo que nos sustenta, nos une, faz com que faamos parte de algo maior que ns mesmos. Muitas pessoas sentem falta disso. Voc certamente sente, e  por isso que trata sua empresa como uma famlia, e seus empregados como se fossem parentes.
Um arrepio percorreu a espinha de Rick.
- Muito obrigado, dr. Freud...
- No h nada de errado com isso,  claro.  essa mesma atmosfera familiar que torna a Blaine Arquitetura um lugar to agradvel de se trabalhar. Mas deve admitir que isso no pode substituir realmente uma famlia de verdade.
- Eu trato as pessoas bem - Rick disparou. - Isso no faz de mim um neurtico.
Frank limitou-se a sorrir. No era o tipo de pessoa que se sentia intimidada facilmente, mesmo por um homem que tinha o poder de demiti-lo.
- Voc no  neurtico, s um pouco covarde emocionalmente. No que eu o culpe, pois conheo sua juventude catica, mas aquilo ficou no passado. - Frank fez uma pausa e sorveu um longo gole do vinho gelado. - Deixe o passado para trs, Rick. Se no fizer isso, ele vai estragar seu futuro.
Se pudesse encontrar uma resposta, Rick teria protestado. Infelizmente, Frank estava certo. O amigo ainda era uma das nicas pessoas nas quais Rick podia confiar, e no tinha medo de ocultar o que pensava s para no ser desagradvel.
- Ligue para ela, Rick. No pense. Apenas engula seu orgulho, pegue o telefone e diga-lhe o que est sentindo.
Depois de sorver mais um gole de usque, Rick ergueu a cabea e encarou o homem do outro lado da mesa com uma expresso de desnimo.
- Como posso dizer o que sinto para Catrina se nem mesmo eu sei direito?
- Voc sabe. Isso o amedronta, mas voc sabe.
Rick suspirou.
- Frank, s vezes, sua franqueza  irritante.
- J me disseram. - Ajeitando-se na cadeira, o homem cruzou as pernas e terminou seu copo de vinho. - Mas, a menos que eu esteja muito enganado, o que raramente acontece, seus sentimentos por aquela garota no vo desaparecer depressa, se  que isso vai acontecer um dia... e, j que voc fica insuportvel no trabalho quando est sofrendo por causa de problemas sentimentais, fui eleito por nossos colegas para convenc-lo a resolver a situao imediatamente.
- Catrina me dispensou. Como eu poderia resolver qualquer coisa?
- As mulheres normalmente no dispensam os homens pelos quais esto apaixonadas, a menos que tenham um excelente motivo para isso. Qual era o dela?
Surpreso, Rick tossiu nervosamente. Aquilo lhe deu alguns instantes a mais para pensar em uma resposta.
- Ela tem o melhor motivo do mundo. Quer um homem que possa ser um bom pai para sua filha, e sabe que esse no sou eu.
- Como ela pode saber disso?
Rick encolheu os ombros.
- Eu lhe disse.
- Ah...
- No me olhe desse jeito.  verdade. Eu seria um pai terrvel.
- O que acha que os pais fazem, Rick?
-  algo que se aprende,  claro, mas para isso precisamos ter tido algum exemplo. No sei o que  preciso para ser um bom pai, porque nunca tive quem me ensinasse isso. - Rick notou um movimento de sobrancelhas de Frank e interpretou-o imediatamente. - Voc  um bom pai, Frank. Seja honesto, tambm teve um bom pai como modelo, certo?
- Na verdade, eu tive mesmo. Ele era meio rabugento, mas sem dvida sempre foi um homem capaz de dar excelentes exemplos de vida para os sete filhos.
Rick tomou outro gole de usque.
- Est vendo,  o que eu queria dizer. 
- Mas ele mesmo no teve essa sorte em sua infncia. Meu pai foi criado em um orfanato, em uma poca em que, nesse tipo de lugar, costumava-se tratar crianas como se fossem gado, e ento jogado na rua no final da puberdade, com pouco mais do que as roupas do corpo. - Frank fez uma pausa durante a qual respirou fundo. - Ele no tinha nenhum modelo paternal para seguir. Basicamente, teve que sobreviver por conta prpria, sem jamais contar com o amor, o suporte ou mesmo a afeio de algum. Quando teve seus filhos, teve que ensinar seus prprios valores, j que no conhecia nenhum outro. Tudo o que sabia era aquilo o que a vida tinha lhe ensinado. 
As sobrancelhas de Rick arquearam-se.
- Pelo que vejo, seu pai era uma pessoa excepcional.
- Nunca duvide disso. De qualquer forma, o que o tornava excepcional era sua recusa em deixar que as privaes a que fora submetido na juventude conduzissem sua vida. Como fora rejeitado desde criana, ele podia ter escolhido rejeitar os outros para no ser magoado novamente. Em vez disso, aproveitou tudo o que tinha aprendido com o sofrimento para que os mesmos erros jamais atingissem seus prprios filhos. - O olhar de Frank era simptico e sincero. - Apaixonar-se nunca  algo que ns planejamos, Rick.  algo traumtico, um sentimento que muitas vezes destroa um corao e, em muitos casos, a alma de uma pessoa. Pode ser amargo, pode ser belo, pode nos purificar ou nos desapontar. Mas o amor  o mais nobre sentimento humano, e viver sem eIe  condenar-se a um tipo de solido insuportvel.
Uma sensao estranha apoderou-se de Rick. O homem que estava em sua frente era um bom amigo, e um excelente pai de famlia. Uma pessoa de corao nobre que estava falando com a maior franqueza apenas para ajudar, aconselhando-o como um pai faria em relao a um filho.
Frank tinha lhe dado um presente inestimvel, oferecendo-se como o modelo de pai que Rick procurara desesperadamente por toda a vida.
- Espero que seus prprios filhos saibam como so afortunados.
- Preciso lembr-los disso s vezes.
Rick hesitou por um instante antes de enfrentar novamente o olhar fixo do amigo.
- Muito obrigado.
- Por qu?
- Por ser um amigo bom o bastante para me tratar como um filho.
- Meu prximo passo ser mand-lo para o quarto. Pode acreditar, vai acabar me agradecendo por isso... o excesso de bebida no faz muito bem para quem no est acostumado a isso. - O sorriso de Frank ampliou-se. - Por outro lado, acho que essa  a ocasio ideal para pedir um aumento...
Rick sorriu.

A garoa fina transformou-se em uma chuva fria e gelada.
Catrina diminuiu a velocidade do carro e pisou no freio, esforando-se para enxergar a entrada da garagem do prdio. Finalmente, conseguiu manobrar e encostar o carro na vaga correspondente a seu apartamento. No podia de forma alguma usar um guarda-chuva, j que precisava das duas mos para manter Heather debaixo de um cobertor. Por isso segurou a menina firme junto ao corpo e correu para a entrada principal como uma louca, mal conseguindo enxergar por causa d gua que a tempestade jogava em seus olhos.
Ela mal viu a figura encolhida diante da entrada principal antes de praticamente esbarrar nela.
Rick levantou-se instantaneamente. Estava completamente ensopado, e em seu rosto havia uma expresso atormentada que ela jamais vira antes.
Catrina prendeu a respirao.
- Voc est molhado - balbuciou estupidamente.
- Sim.  -Ele enfiou as mos nos bolsos da jaqueta, um gesto que repetia freqentemente quando queria ganhar tempo. - Voc tambm. - Ele franziu as sobrancelhas, aparentemente frustrado por no ter dado uma resposta mais brilhante. - Eu, h... posso segurar Heather para que voc abra a porta...
Fazendo aquilo, ele deu um passo para trs para que ela tivesse acesso  porta. As chaves tremiam nos dedos gelados de Catrina, e ela teve que fazer vrias tentativas antes de conseguir abrir a fechadura.
Rick deu um passo para a frente, colocando a mo sobre a dela.
O calor daquele toque a fez tremer ainda mais. Ela no sabia por qu.
Ou talvez soubesse.
- Deixe-me ajud-la - ele pediu suavemente.
Um minuto depois ambos estavam na sala de estar do apartamento, pingando sobre o carpete. Rick olhou espantado para as caixas de papelo espalhadas ao redor. Sua expresso era curiosa e alarmada.
- Eu... - Ela engoliu em seco. - Deixe-me tirar as roupas molhadas de Heather e pegar uma toalha para voc.
- Claro. - O olhar dele fixou-se em uma pilha de fotografias que outrora ficavam penduradas nas paredes da sala de estar, mas que agora aguardavam sobre a mesa para serem embaladas. - Sem problema.
- Voc molhado! - Heather disse em um grito animado. - Eu tenho bota nova!
O olhar de Rick enterneceu-se ao mesmo tempo em que seus lbios curvavam-se em um sorriso.
- Estas botas so bonitas... Voc gosta da chuva?
- H, h. - A pequena arqueou as sobrancelhas quando Catrina tirou-lhe a jaqueta, e ento sentou-se no cho para tirar as botas das quais a menina tanto se orgulhava.
- No, bota minha, minha!
Por favor, Deus", Catrina rezou silenciosamente, "no deixe que ela tenha um ataque de choro".
- S usamos botas de chuva quando estamos fora de casa, amor, e s quando est chovendo. Vai ter que tir-las agora.
- No! - A menina parecia irredutvel.
- Heather, doura - Catrina disse por entre os dentes cerrados.  -Seja uma boa menina enquanto temos visita.
Lgrimas caram dos olhos da menina, misturando-se s gotas de chuva nas faces vermelhas. Ela respirou fundo, depois emitiu um grito cujo volume seria o bastante para interromper o trfego a trs quarteires de distncia.
Catrina estava horrorizada. Ela levantou a criana teimosa do cho, levando-a para o quarto e colocando-a na cama. Discusses como aquela no eram rotina, mas isso no as tornava mais agradveis. A nica forma que tinha encontrado de lidar com aquilo era deixar Heather sozinha at que ela se acalmasse.
 claro, tambm tirou as botas da menina como havia dito que faria. Quando voltou para a sala de estar, Catrina encontrou Rick exatamente onde o havia deixado. Seus olhos ainda estavam arregalados, e suas mos continuavam enfiadas nos bolsos da jaqueta molhada.
- Ela realmente gosta daquelas botas, no ?
- No tanto quanto gosta de me provocar s vezes, at descobrir realmente quem manda por aqui.
- Voc cuidou disso muito... - Ele fez uma pausa quando os gritos furiosos de Heather, vindos do quarto, aumentaram alguns decibis em volume. - Bem.
- Agora voc conhece a verdade - ela disse, rindo desajeitada. - Todas aquelas histrias maravilhosas que os pais contam sobre suas adorveis crianas so apenas mentiras deslavadas para enganar pessoas incautas.
Uma srie de batidas reverberou pelo apartamento. Os olhos dele imediatamente se arregalaram.
- Santo Deus, o que  isso?
- Ela est chutando o bero. - Catrina respondeu. - Faz isso quando a garganta comea a doer, mas ainda no est pronta para desistir.
- Isso  normal?
Ela ergueu a cabea e o encarou, estudando-o por alguns instantes com expresso pensativa.
- Sim, quando se trata de Heather... e acho que  normal na maioria das crianas de dois anos. Elas testam seus limites.  assim que exploram o mundo, descobrindo como se encaixar nele. - Catrina notou a expresso espantada de Rick, com curiosidade. Ele parecia confuso, extremamente nervoso. Aquilo a tocava, mas ao mesmo tempo fazia com que se sentisse magoada. - Nessa altura voc deve estar agradecendo aos cus por ser um membro permanente da honorvel instituio dos solteires convictos.
O comentrio brincalho destinava-se a amenizar a tenso, mas para horror de Catrina, sua voz falhou e soou como se estivesse prestes a chorar.
Piscando rapidamente, ela virou as costas para ele e tentou fingir um comportamento casual.
- Ora, o que aconteceu com minhas boas maneiras? Voc aceita um caf? - A ltima frase morreu quando Catrina olhou para o balco vazio na cozinha. - Acho que j empacotei a cafeteira... Posso esquentar um pouco de gua no microondas e...
Ele a interrompeu.
- Por que est indo embora?
O corao de Catrina batia violentamente.
- Vai ser melhor assim.
- Melhor para quem?
- Melhor para todo mundo.
Rick permaneceu em silncio. Catrina teve que se esforar para no olhar por sobre o ombro, sabendo que ia se arrepender muito se fizesse aquilo. Quando Rick falou outra vez, sua voz foi suave, um murmrio rouco quase inaudvel por causa do barulho provocado pela chuva e pela criana raivosa que continuava gritando no quarto ao lado.
- No quero perd-la.
Catrina umedeceu os lbios, olhando na direo da porta de onde os gemidos de Heather continuavam reverberando.
- Existem contadores excelentes, precisando de emprego. Frank provavelmente vai conseguir colocar algum em meu lugar antes do fim da semana.
- No estou falando sobre o trabalho.
Um rudo surdo anunciou que ele estava se movendo. Catrina no precisou olhar para saber que Rick agora estava parado a seu lado, perto o bastante para que seu cheiro a envolvesse como um abrao. Instintivamente, ela soube que ele estava prestes a toc-la, e se aquilo acontecesse certamente estaria perdida.
- No - ela sussurrou. - Se veio para dizer adeus, apenas faa isso, e deixe que continuemos nossas vidas.
- Eu no quero dizer adeus, Catrina. E quanto a vida de vocs... bem, tudo o que sei  que minha prpria vida vai ser triste e solitria se voc e Heather no fizerem parte dela.
Ela finalmente virou-se para encar-lo. Devia haver algum engano. No havia nenhum sorriso brincalho, nenhum trao de humor nos olhos azuis, avisando que ele estava fazendo uma piada. A expresso de Rick era solene, seu olhar faiscante como ela jamais vira.
- Nunca estive apaixonado - ele admitiu em voz baixa. - Honestamente no achava que isso existisse de verdade, a no ser em filmes e romances. Acreditava que era uma mera figura de linguagem para justificar por que seres humanos perfeitamente racionais escolhiam abrir mo de sua autonomia e liberdade. Claro que havia algumas justificativas vlidas, como a necessidade gentica da espcie de se reproduzir, mas certamente isso no se aplicava a mim.
Uma pontada de dor atingiu-a no peito.
- Voc j foi bastante claro a esse respeito antes.
- Sim, eu fui. - O tom amargo da voz dele a surpreendeu. - O bom e velho Rick, amigo de todos, o solteiro do ano. Incapaz de faltar com a honestidade em qualquer circunstncia. - Ele suspirou, enxugando o rosto com as mos - Droga, eu no consigo nem sequer fazer isso direito...
- Fazer o qu?  Preocupada, Catrina tocou-o no brao em um gesto inconsciente e automtico.
Rick segurou aquela mo como se fosse a jia mais preciosa do mundo, pressionando-a contra o rosto.
- Uma autocrtica. Nunca tinha feito isso antes.
Algo em seu olhar manteve Catrina calada.
Ele respirou fundo.
- Voc no precisa de mim em sua vida, eu sei disso. Mas descobri que preciso de voc, Catrina, preciso mais de voc do que achava ser possvel. Se me disser para ir embora, farei isso. E vou sobreviver, mas no estarei realmente vivendo. Porque uma parte de mim estar faltando, a melhor parte, a parte que dei a voc. - Ele beijou-a na ponta dos dedos, tomando a mo dela e pressionando-a contra o prprio peito.
- O que est sentindo?
Ela engoliu em seco.
- Uma jaqueta fria e molhada?
- Exatamente. E por trs dessa jaqueta fria e molhada est metade de um corao, esforando-se para bater como um louco. - Ele baixou o olhar, fixando-o no dela. - Voc tem a outra metade, Catrina. Voc e Heather. No se preocupe em devolv-la, voc a possui agora,  sua para sempre.
- Para sempre  muito tempo - Catrina sussurrou. - As coisas mudam... as pessoas mudam.
Ele meneou a cabea. ...
- No posso negar isso, mas posso dizer que no importa o que acontea, no importa o que o futuro traga para ns, eu quero ser parte de sua vida, Catrina. At o fim dos meus dias. Quero v-Ia dormindo em meus braos, acordar do seu lado at que ns dois sejamos velhinhos e precisemos de mais fraldas do que nossos netos. - Ele corou assim que ela comeou a rir. - Sei que no  uma imagem muito romntica... Eu lhe avisei que no sou muito bom nisso.
Ela acariciou-o no queixo com o dedo indicador.
- Para ser franca, acho que essa foi a coisa mais romntica que j me disseram.
O olhar de Rick demonstrou alvio por um instante, e ento voltou a indicar cautela.
- No sei como ser um marido, querida, e pode ter certeza de que no sei como ser um pai. A verdade  que no consigo pensar em uma nica razo para convenc-la a passar o resto da vida com um homem que, de acordo com um amigo muito sbio,  um "covarde emocional".
Catrina sorriu.
- Mas que coincidncia. Uma amiga minha, muito sbia alis, disse-me que se um de ns se desarmasse e desse uma chance ao outro... Bem, ela no terminou a frase. Acho que talvez devamos terminar por ela.
- Soa como algo dito por minha me. - Rick respirou fundo, exalando o ar lentamente. - Estou desarmado, como no primeiro dia em que a vi. Naquela dia eu soube que minha vida no seria mais a mesma. - Ele hesitou. - E quanto a voc, Catrina? Ser que teremos uma chance para transformar minha me na vov mais feliz do mundo?
Catrina olhou-o por um momento, mantendo uma expresso pensativa.
- Isso depende.
- Do qu?
- De voc, Rick. Acabou de dizer que no conseguia pensar em um nico motivo para que eu passasse minha vida a seu lado...
Ele empalideceu.
- Existe um motivo.
- Estou ouvindo.
Ele tossiu, balanando o corpo de um lado para o outro como se as palavras estivessem entaladas em sua garganta.
- A menina parou de chorar - murmurou.
A expresso de Catrina permaneceu impassvel.
-  tarde. Ela provavelmente adormeceu.
Finalmente os ombros dele relaxaram, a cor retornou a seu rosto, e seus lbios curvaram-se em um sorriso.
- Eu a amo, Catrina. Nunca disse estas palavras para ningum antes, nunca entendi o que significavam realmente, mas agora as entendo. No posso adivinhar o que o futuro trar, mas posso prometer que nunca vou deix-la e que nunca, nunca deixarei de am-la.
As lgrimas, havia tanto tempo contidas, correram pelo rosto dela.
- Nunca  um longo tempo.
- No  longo o bastante - ele sussurrou. - Mas j  um comeo.


EPLOGO

A praia estava cheia como sempre, mas no to lotada para um delicioso clima de outro adorvel dia de primavera.
Catrina estreitou os olhos, sorrindo consigo mesma. L estava ele, bronzeado e viril, com os ombros largos brilhando ao sol. Seu corao ainda disparava cada vez que o via, e ainda ficava emocionada quando pensava que j era a sra. Rick Blaine havia mais de dois anos.
-  melhor colocar algum protetor solar nas pernas, querida.
- O qu? - Virando-se para o outro lado, Catrina sorriu ao encarar a querida amiga que passara a fazer parte de sua vida e da de Heather. - Estou usando camiseta e bermuda, Gracie. Acho que no corro nenhum risco.
Segurando a neta recm-nascida nos braos, Gracie revirou os olhos em uma careta.
- Uma mulher precisa de cuidados adicionais depois de dar  luz, Catrina. Alm disso, esbelta como , voc no deveria estar usando tanta roupa... a no ser que meu filho esteja criticando sua forma... Ele fez isso? Se fez, vou ter uma conversa com ele agora mesmo.
Aturdida com a srie de perguntas, Catrina deixou escapar uma risada.
- Rick  o mais devotado marido que se pode imaginar. Ele nunca reclamou disso, nem mesmo nos ltimos meses de gravidez, quando minha barriga parecia uma melancia, e eu caminhava como um pingim. O que a fez pensar nisso? 
- Bem... sua roupa, para comear.
- Puro ego ferido. Tentei vestir meu biquni favorito hoje pela manh, e o resultado no foi nada bom... - Catrina riu, ergueu os culos de sol e os apoiou no alto da cabea. - Olhe para ele - disse com um suspiro. - J viu um homem mais perfeito em toda sua vida?
A contragosto, Gracie desviou o olhar do rosto sereno da criana que segurava, e ento fixou-o na multido que estava na praia. Caminhando na beira d'gua, Rick segurava Heather pela mo, guiando-a para onde as ondas eram menos altas.
- No posso dizer que j vi. - O orgulho de Gracie em relao ao filho era evidente. - Se houvesse encontrado um, eu mesma teria me casado com ele. Mas em vez disso tive que fazer o trabalho criativo para depois entregar minha obra a outra mulher.
- E essa mulher tem que lhe agradecer do fundo do corao. Voc fez um trabalho magnfico.
- Muito obrigada, querida. Devo dizer que voc tambm no se saiu nada mal. Duas crianas to lindas... - a voz de Gracie falhou levemente - ...deixam uma av orgulhosa.
Catrina sentiu um aperto no peito, e em um gesto automtico, ela inclinou-se para acariciar o rosto pequenino do beb.
- Sabrina Leanne Blaine - ela sussurrou. - Espero que o futuro seja to gentil com voc quanto foi comigo e sua irm.
O sorriso parecia habitar eternamente os lbios de Catrina agora. Suas duas filhas eram crianas lindas e saudveis. Aos cinco anos, Heather ficava cada vez mais alta, tinha comeado a freqentar a escola e j era considerada uma das melhores alunas. Motivos de sobra para fazer de Catrina uma me orgulhosa. Perdida em pensamentos, ela falou em voz alta:
- Rick me disse ontem  noite que as meninas precisavam de um irmozinho.
Gracie riu.
- Se espera que eu a desencoraje, pode esquecer. Em minha opinio, quanto mais, melhor.
- Foi exatamente o que Rick disse. - Rindo tambm, Catrina ajeitou-se na cadeira e ajustou o guarda-sol. - Por falar nisso, minha irm Laura est grvida de novo...
- Essa  aquela que vive em Nova York com um milionrio que fingia no gostar de crianas nem de gatos, mas que acabou com uma casa cheia de ambos?
- Exatamente. E a melhor parte  que Laura est esperando gmeos. Gmeos! Pode acreditar nisso? Com isso sero quatro filhos, e esto casados h pouco mais de quatro anos.
Gracie olhou maliciosamente para a nora.
- Se se apressar poder alcan-la.
- Temos tempo de sobra. - Catrina murmurou. - Todo o tempo do mundo.
- Diz isso como se realmente tivesse certeza.
- Digo isso porque  verdade. Rick me ensinou isso. Ele costuma dizer que somos almas gmeas, e sabe de uma coisa? Ns somos. Ele  parte de mim, a melhor parte de mim, e no ntimo sei que tambm sou a melhor parte dele. - Ela enfiou a mo na areia, deixando os gros escorrerem entre seus dedos.
Pela primeira vez na vida, sabia o que era viver as fantasias que alimentara na infncia. Ela e Laura eram como Cinderelas que haviam encontrado seus prprios prncipes encantados.
Era preciso coragem para arriscar, seguindo a voz do corao. Mas as recompensas estavam acima de tudo que Catrina jamais imaginara. O amor verdadeiro no era um mito, afinal de contas.
E o restante de sua vida estava apenas comeando.


FIM



